Uivo Zebra: “Uivo Zebra” (Bocian)

Rui Eduardo Paes

Este esteve para ser o primeiro álbum de Uivo Zebra, e daí o título homónimo, mas a sua edição física acabou por surgir depois do lançamento da cassete “Gancho”, já nestas páginas assinalada, embora estivesse disponível nas plataformas digitais há uns meses. As duas gravações distam cerca de um ano, o que é muito para a vida de uma banda que tem no seu código genético a exploração de situações. A Bocian demorou a colocar este CD nos circuitos discográficos, mas se tal aconteceu por acidente deu-nos, a nós ouvintes, uma vantagem: a de perceber o que nesse intervalo de tempo mudou no grupo formado por Jorge Nuno (Signs of the Sillhouette, Dead Vortex), Hernâni Faustino (Red Trio, Amado / Faustino / Lencastre) e João Sousa (ParPar, Cardíaco). Se em “Gancho” encontrámos uma fórmula já sedimentada, neste não podia haver maior sentido de pesquisa nos caminhos que se percorrem. Ambas as circunstâncias têm as suas vantagens e desvantagens, e se neste caso há ainda alguma indefinição de parâmetros, sabem particularmente bem o carácter de “jam” e o “garage approach” que atravessam todos os cinco temas.

Quem gosta de música feita a cru tem aqui um pedaço do paraíso. Quem prefere projectos mais consistentes (porque trabalhados e aperfeiçoados) preferirá o que está em “Gancho”. Nas improvisações de “Uivo Zebra” vencem os factores da espontaneidade, da visceralidade e da tentativa, aqueles precisamente que são colocados em risco quando um projecto é moldado “à la longue”. Assim como são mais directas, mais determinantes, as referências musicais colocadas em jogo, designadamente o rock psicadélico, o blues-rock, o prog e o jazz eléctrico das décadas de 1960 e 70. Ainda assim, e tal como assinala o crítico Guy Peters nas “liner notes”, a liberdade investigativa deste CD revela uma disciplina de grupo e até um entrosamento que não são propriamente comuns no início de um caminho, e isso deve-se ao facto de estarmos perante três experimentados músicos que compreendem bem que improvisar é, acima de tudo o mais, um acto colectivo. Desenvolvimentos deste cometimento estão prometidos ainda para este ano, continuando o que entretanto aconteceu ao vivo, por exemplo (Concêntrico #3), com o acrescento de um violino (Maria do Mar) e de um violoncelo (Helena Espvall)…