Frame Trio: “Luminária” (FMR Records)

Rui Eduardo Paes

Se “camp jazz” fosse uma categoria definidora de um tipo específico de abordagem, o de um jazz de fogueira na praia, bem que o Frame Trio caberia nela: o jazz regra geral pausado, contemplativo e nocturno (a luz a que se refere é a da lenha a arder e do reflexo da Lua no mar) deste “Luminária” tem mais de folk, de blues e de rock de campismo do que alguma vez poderia acontecer nos domínios do chamado “jazz de câmara” – tendência em que, bem ou mal, se vão arrumando os projectos que prescindem de uma bateria. O que significa que Luís Vicente, Marcelo dos Reis e Nils Vermeulen lidam mais com estados de espírito do que com questões cerebrais de organização dos sons: os seis temas aqui reunidos contentam-se com exprimir emoções e são altamente eficazes nisso.

O que vai acontecendo é para sentir na pele antes que se faça qualquer tipo de degustação intelectual, prescrevendo uma atitude de escuta que tem mais a ver com a música popular do que com a experimental dos circuitos em que habitualmente o trompetista, o guitarrista e o contrabaixista em causa se movem. O que ouvimos pode não ser fácil em ocasiões, mas mesmo nessas toca-nos de um modo simultaneamente muito físico e espiritual, em ambos os casos não apelando à racionalidade – está tudo aquém ou além desta. Para aqueles que já tinham ouvido alguma coisa de Kenny Wheeler no trompete de Vicente, essa faceta tem neste álbum, finalmente, uma maior vazão, ainda que tal referência seja conduzida para situações que mais esperamos de um Axel Dorner. dos Reis mais uma vez nos surpreende com a inventividade dos seus obsessivamente repetidos motivos rítmicos com o uso de um arco, das libertadoras pinceladas de distorção ou das derivas acústicas que ecoam as guitarras do Delta. Vermeulen confirma, por sua vez, a sua fama de improvisador especialmente sensível e reactivo, com algo a acrescentar em todos os tipos os tipos de situações e sublinhando o seu efeito de modos sempre oportunos. Uma delícia de disco.