Zwerv: “Music From Any Moment” (Creative Sources)

Rui Eduardo Paes

Poucos músicos da cena portuguesa do jazz criativo e da livre-improvisação ganharam, como Luís Vicente, o relevo internacional que vamos testemunhando pelas notícias de concertos seus fora de portas e pelos lançamentos discográficos em que o encontramos junto de músicos da Holanda, da Bélgica, de França e da Polónia. É esse o caso do novo “Music From Any Moment”, inserido nuns Zwerv que se converteram de quinteto em septeto com a inclusão do trombonista Salvoandrea Lucifera e do pianista Nico Chientaroli. Se o primeiro disco em que o ouvimos com o guitarrista Henk Zwerver, o mentor do projecto, Ziv Taubenfeld (clarinete baixo), Raoul van der Weide (contrabaixo) e George Hadow (bateria), “Zwerv Live”, estava parametrado pelo jazz de Eric Dolphy e Booker Little, neste é dada livre expressão às abordagens tipicamente texturais da improvisação segundo uma das suas linhas estilísticas mais fortes, a britânica, cunhada por figuras como Derek Bailey (influência maior de Zwerver), Evan Parker, John Stevens e Cornelius Cardew.

Ainda assim, e ainda que pouco sobreviva neste contexto das matrizes do pós-bop e do free, o pontilhismo e a “bricolage” sonora destes Zwerv poucas relações têm igualmente com a “new school” da música improvisada e, designadamente, com o chamado reducionismo. E não apenas pelo facto de nada haver de minimalista, ou de assunção da estética do silêncio, nas oito peças reunidas: os intervenientes não hesitam em recorrer a repetições de motivos e em frasear melódica e tonalmente quando tal lhes faz sentido, com o todo a ganhar mesmo uma dimensão orquestral. A estratégia seguida coloca-os entre a tradição improvisacional nascida na década de 1960 e as mais recentes tendências desta área da música criativa. Vicente está como peixe na água, ora utilizando o trompete como emissor de borborigmos, ora actuando de forma mais convencional, sempre ao serviço do jogo tímbrico que vai sendo equacionado pelos enxames de som. Ainda que o seu instrumento, como todos os demais, por vezes desponte, esta é uma música colectiva, pelo que não há propriamente solos. Em permanente interacção de papéis, o grupo funciona como uma micro-sociedade não organizada hierarquicamente, cumprindo os desígnios libertários que deram origem a esta prática musical e que algumas vezes têm sido esquecidos. Um CD muito recomendável, portanto.