Mia Dyberg Trio: “Ticket” (Clean Feed)

Gonçalo Falcão

Mia Dyberg é uma miúda franzina dinamarquesa com pulmões de um “boxeur” peso-pesado. E é a responsável pelo saxofone alto neste trio magro com contrabaixo (Asger Thomsen) e bateria (Dag Magnus Narvesen). A música do grupo está domiciliada nos blues, num baixo repetitivo que constrói uma base cíclica e numa bateria que o acompanha sem ambições, mas afastando-se muito do formato americano. É simples-simples: o sax toca com a melancolia escandinava, a bateria e o contrabaixo improvisam as bases para este solar – por vezes sem criarem uma estrutura, outras funcionando como suporte. E é por isso que todo este disco me soa a blues, um blues limpo, sem pântanos nem deltas; de quem olha para o horizonte sem a necessidade de o conquistar, só pelo prazer contemplativo.

O CD toca 14 temas, cada um a rondar os três minutos, que evocam o que os Ramones fizeram ao rock progressivo: voltaram atrás, purificaram. O som do saxofone, por vezes traficado, nunca perde o “punch” e o sentido de urgência de quem é novo e acredita no que está a dizer. Se a base de “Ticket” é a improvisação total – e à medida que os temas vão avançando o disco perde cada vez mais as referências iniciais –, parece ficar sempre presente, mesmo de modo muito ténue e difuso, a ideia de repetição cíclica de uma esperança. Free-improv-blues de uma miúda dinamarquesa que não veio do pântano, mas sabe que, se as coisas continuarem assim, para lá caminharemos de volta.