Mário Costa: “Oxy Patina” (Clean Feed)

Gonçalo Falcão

Este é um disco bonito, que começa por nos instalar numa cadeira e dizer: agora ouve. Di-lo com tranquilidade e sem imposições. Com uma naturalidade que acompanha toda a audição do álbum, encantada pelos pormenores que se descobrem dentro de uma música elegante. Mário Costa, o baterista de Viana do Castelo, interrompe a imobilidade do Verão ao lançar o seu primeiro disco como líder. E começo por aqui, pela questão da liderança: “Oxy Patina” merece o máximo das estrelas porque a composição extrai o melhor dos dois músicos singulares que Costa escolheu para estas gravações (brilhantemente captadas em concerto, com uma qualidade sonora notável), Marc Ducret e Benoît Delbecq. Ao primeiro mérito, o de compositor (todos reconhecemos a Ducret o talento guitarrístico, mas também a edição de alguns discos de qualidade sofrível – aqui é sempre excelente), adiciona-se o do instrumentista que toca com muita qualidade e verve, usando uma imensidão de recursos expressivos na bateria.

A música é feita de ideias interessantes, fora do jazz mais convencional, mas sem avançar para terrenos de grande abstracção. Notam-se os limites, mas também a mobilidade dentro dessas fronteiras. Quase todos os temas são desenvolvidos a partir de frases musicais interessantes, que partem de um princípio simples, cantável, mas que se vão desmultiplicando em vários andamentos e tensões, resultando numa música viajante, que percorre um caminho em que o ritmo parece ser o elemento alterador e decompositor das linhas melódicas. Mário Costa toca com sabedoria e tem um pensamento musical profundo e que não se contenta com o uso de fórmulas resolventes. É contido, sabe quando deve falar e quando deve calar e tem um métrica inabalável. Muito boa é a capacidade de Delbecq em criar diferentes ambientes e sonoridades usando o piano e os sintetizadores. Ducret usa a sua linguagem guitarrística na melhor versão, sendo cristalino na entrega dos temas e depois tenso e saturado nos solos, com delicadeza, um uso ponderado do volume e uma integração perfeita no som do grupo. Tendo recebido a carta de alforria pela Casa da Música em 2010 (onde apresentou ”Homo Sapiens” com Hugo Carvalhais e Gabriel Pinto) é agora altura de Mário Costa se fixar também como um notável compositor. O lançamento de “Oxy Patina” será feito no dia 12 de Setembro, em Lisboa, no Capitólio, num concerto ao abrigo do Fringe Program, inserido na programação da European Jazz Conference, que este ano decorre em Lisboa. Enquanto a data não chega podemos aquecer os motores ouvindo as gravações. São 55 minutos de muita consideração pelo ouvinte.