Amaro Freitas: “Sangue Negro” (Catinga Criativa / Ponto 4)

Gonçalo Falcão

Conhecemos tão pouco do jazz brasileiro... Hermeto, Gismonti e pouco mais. Estranhamente, quase tudo o que tem chegado do “país irmão” é conservatorial, com registos certos dentro de um modelo classicista e bem comportado. Por certo haverá muito mais em todos os formatos e feitios, mas nós não sabemos. Na verdade, há um enorme desconhecimento musical mútuo, pois, também no campo da pop, a esmagadora maioria do que chega a Portugal é lixo (e certamente que a música diferente não morreu com Tom Zé) e o rock brasileiro nunca foi bom. O Brasil tem, sabemo-lo, uma enorme quantidade de instrumentistas excelentes, tecnicamente superiores, mas que de algum modo parecem não querer sair da mediania criativa e arriscar em soluções novas. São óptimos a tocar com David Byrne...

É neste espírito de achamento que desembarcamos no novo disco do recifense Amaro Freitas, “Sangue Negro”. Amaro é um pianista excelente que se revela também como compositor. Toca be bop-frevo-jazz, uma música assente na tradição, mas que tem sempre uma batida livre, fluida e dançante. Premiado no Brasil (venceu o MIMO Instrumental de 2016), este disco oferece um jazz conservador, sim, mas com um “zest” tropical. O pianismo de Freitas é doce e tem uma técnica superior que lhe permite solar com enorme rapidez, sem perder o sentido da melodia. O baixista Jean Elton e Hugo Medeiros na bateria (mais algumas participações especiais) encaixam como peças do Ikea na música e nos solos uns dos outros. A música vem de Recife, a cidade mais linda do Brasil, capital do frevo e do melhor carnaval. O tema “Samba de César” homenageia o famoso bandolinista pernambucano e é a peça pela qual eu recomendaria entrarn o disco. Com um arranjo que evoca os sambas da década de 1970, a música ouve-se com enorme prazer. Sucesso, visse!