Chris Pitsiokos Unit: “Silver Bullet in the Autumn of Your Years” (Clean Feed)

Gonçalo Falcão

Não cansa de surpreender a capacidade da Clean Feed de apresentar música nova e músicos originais e interessantes vindos da América. Os Estados Unidosestão cada vez mais longe e há a sensação crescente, mesmo entre os músicos de jazz, de que a máxima “business is business” está a tomar conta dos seus cérebros. O “fuck Trump” tão ouvido em concertos de americanos no Velho Continent, parece cada vez mais um dixote para arrancar as palmas (fica sempre bem), mas na hora agá, “money talks”. Por isso, esta capacidade, por parte de Pedro Costa, de identificar casos excepcionais, que não alinham nesta bitola, e de os editar é notável. E que sorte a nossa a “label” estar ali na Parede. On Parede. Vem este intróito a propósito de um disco de Chris Pitsiokos, o saxofonista de Brooklin com 28 anos que já tem um som singular no seu instrumento e uma música espantosa. O mais fácil era definir “Silver Bullet in the Autumn of Your Years” como jazz-rock: as baterias de Jason Nazary e Connon Baker, a guitarra de Sam Lisabeth e os baixos eléctricos de Tim Dahl (conhecemo-lo dos Pulverize The Sound, dos Taliban! e de tocar com Lydia Lunch) e Henry Frazer vêm de valentes sessões hardcore de “mosh”, “headbanging”, “booty dancing” e outras esbórnias.

Pitsiokos toca e escreve com o objectivo de revolucionar, de fazer música que ainda não foi tentada. Há neste disco a procura de um caminho próprio, de um som. Não é um disco de rock; não é fácil para um ouvinte de rock sequer perceber o que aqui está a passar-se. É, isso sim, um jazz musculado, intenso, rápido e cíclico. Os músicos conseguem tocar a uma velocidade extrema, há um sentido de festa e de celebração que vem de Albert Ayler e que extrai a dureza da música e a substitui por um “groove” alegre. O que acontece está entre dois mundos: por vezes o que ouvimos parece-se com os fluxos repetitivos do funcionamento de máquinas industriais, enquanto em outras dir-se-ia que passam nuvens densas diante de nós, muito rápidas e com formas imprevisíveis. Tudo é profundamente musical, bonito de seguir e culto, vindo de quem ouviu muito jazz sem preconceitos. A excelência do disco coloca Pitsiokos na frente de uma nova geração de músicos nova-iorquinos, cidade que nunca deixou de marcar o jazz mundial. Não podia estar mais de acordo com o que a editora anuncia no press relase: «The result is astonishing.»