Belzebu

Telectu: “Belzebu” (Holuzam)

Holuzam

Gonçalo Falcão

«Há vidas, e não das menos patéticas, que são uma longa e só hesitação. Consomem-se sem nunca arder», escreveu Eugénio de Andrade no catálogo de uma exposição dos anos 1970. Nesta altura, germinava no Porto um movimento cultural que contrariava o atraso cultural da cidade e do País e a história deste disco é, de certo modo, a história de duas pessoas que eram muito mais do que Portugal era na altura.

Em 1982, Vítor Rua liderava os GNR e a banda estava confortavelmente instalada no pop-rock nacional. Jorge Lima Barreto foi para o Porto ido de Vinhais e depois para Lisboa, à procura de espaço para um pensamento inconformado e vanguardista. Conheceram-se através de Rui Reininho (com quem Lima Barreto gravou o LP “Anarband”). Rua, ainda nos GNR, mas já com uma vontade de experimentação, alimentada por Barreto, lidera a gravação de “Independança”, o primeiro álbum da banda, que é um disco arrojado para a sua época (em contexto europeu, que não só nacional). Numa sessão de improvisação (Rua, Megre, Reininho, Toli) gravam o tema emblemático desta edição: “Avarias”, com quase 30 minutos (ocupava integralmente o lado B do LP) é uma revolução no pop-rock e estragou os GNR; Rua queria continuar a explorar este filão, enquanto o resto do grupo hesitava em abandonar o “Portugal na CEE”.

«Demitidos» os GNR (que continuarão sem ele, arrastando um processo legal), o então baixista forma os Telectu com Jorge Lima Barreto (o nome do grupo vem de um poema de Eugénio de Melo e Castro). O primeiro disco, “Ctu Telectu” (então em quarteto), deu continuidade à experiência de “Avarias”, com Toli (GNR) na bateria, Rua na guitarra, Lima Barreto no sintetizador e “Dr. Puto” na voz. Depois deste arranque que ainda pode ser referenciado no art-rock, os Telectu abandonam este modelo e partem para uma música diferente, na qual a electrónica desempenha um papel fundamental. Lima Barreto introduz o “minimal repetitivo”, que mais do que um neologismo é uma nova música minimal que reconhece que o “minimal” (termo inglês aplicado a Steve Reich, Philip Glass, etc.) não tem de ser repetitivo (La Monte Young, Terry Riley) e que o “repetitive” (termo francês) não é necessariamente minimal (Louis Andriessen, Arvo Pärt).

“Belzebu” (1983), editado pela Cliché Música de Rui Pavão, introduz ao País uma música intelectualizada e feita de ciclos de repetições na guitarra e arpejos no sintetizador. Unidades electrónicas repetitivas (em estúdio, mudando frequentemente de tonalidade ao vivo) interceptam-se com sequências periódicas na guitarra. Os arpejos de sintetizador marcam uma música quase dançável e a guitarra de Rua constrói uma segunda voz que acrescenta uma melodia à estrutura repetitiva lançada pelo sintetizador. Assim, mais do que música, “Belzebu” é a invenção musicográfica que mescla os processos minimais criados no final da década de 1960 e desenvolvidos por Glass e Reich no final da de 70 com a improvisação e uma ideia vanguardista de jazz. Lima Barreto era dos poucos, na altura, que conheciam e defendiam os músicos que hoje mesmo os mais conservadores aplaudem: Keith Jarrett, Ornette Coleman, Albert Ayler, Sun Ra, etc.

Este “Belzebu” é a primeira obra minimalista feita em Portugal. O disco resulta de aproximadamente 30 concertos em meio ano e de uma teorização de Jorge Lima Barreto. É, por isso, um trabalho muito sério, recorrendo à tecnologia mais avançada da altura (Roland Juno-6, Yamaha CS-30, Drumatix, Roland 808), tanto usada de forma sistemática (ensaiada e testada) ou livre (a marimba gravada numa improvisação enquanto JLB ouvia Ornette num “walkman”), numa interpretação vaga da ideia de minimal-jazz-rock.

O público português é por vezes pequenino e, tal como Manoel de Oliveira será sempre lento e “chato”, os Telectu ficaram para sempre “minimais”, apesar de terem abandonado este caminho pouco tempo depois desse primeiro disco. Entretanto, o País cresceu e desenvolveu-se e há uma nova geração mais curiosa e capaz, para quem esta música, que na altura era tão avançada e estranha, soa agora serena e interessante. “Belzebu”, percebemo-lo hoje, 35 anos depois, é um dos mais importantes documentos da música electrónica e experimental portuguesa. Foi reeditado em CD pela AnAnAnA de Paulo Somsen, numa caixa de cortiça difícil de encontrar e cara. O vinil original começou a cavalgar preços no Discogs e hoje são precisos mais de 100 euros para o comprar, e a edição em CD também é raríssima. Assim, é com prazer que vemos chegar esta primeira reedição em vinil que dá nova vida a esta música e a disponibiliza a preços decentes para os ouvintes.

Nota sobre o restauro áudio e visual para esta edição: «Esta reedição de Belzebu apresenta o LP como ele deveria ter saído na época: capa a preto-e-branco e o áudio com “brilho” (o original tem poucos agudos e está muito “embaciado”), sem perder “corpo”», explica Vítor Rua. As alterações na masterização foram feitas a partir das bobinas originais e realizadas no Dim Sum Studio por António Duarte, sob supervisão do músico. Foi ainda recuperado o “Separador Belzebu”, achado quase sem querer numa cassete e fornecido à parte, num CD, incluso com o vinil. Foi retirado o “reverb” à gravação, uma ideia do maestro Jorge Costa Pinto que nunca agradou ao grupo. Como refere Rua, esta reedição é, na realidade, a «edição original», no sentido de que é a que «cumpre todos os requisitos pretendidos pelos Telectu: do som à capa».

O restauro gráfico digital foi feito a partir dos originais (capa, “labels” e “inner sleeve”) e com o cuidado de repor um revés da história: o original entregue por Melo e Castro era a preto-e-branco, mas no final do processo de impressão surgiu a ideia de introduzir uma cor de fundo. As limitações técnicas e os atrapalhos gráficos próprios de 1983 fizeram com que essa cor tivesse saído um cinzento-castanho-cor-de-burro-quando-foge. Assim, em conjunto com Vítor Rua, foi tomada a decisão de repor a intenção original, vítima de uma experimentação dos anos 80 que não correu bem.

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    Belzebu (Holuzam)

    Telectu

    Jorge Lima Barreto (sintetizadores, electrónica); Vítor Rua (guitarras eléctrica e sintetizada)