Barre Phillips: “End to End” (ECM)

Rui Eduardo Paes

O norte-americano (mas há muitos anos residente em França, com frequentes passagens por Portugal porque era cá que os seus pais viviam) Barre Phillips vai apresentar-se num concerto no Museu do Chiado, em Lisboa, no próximo dia 24 de Agosto. Está longe de ser uma estreia, mas agora a ocasião é especial: assinala a edição do último disco que o músico decidiu lançar no formato a solo, e daí o título que lhe deu, “End to End”. Acontece tal passados 50 anos desde “Journal Violone” (1968), que foi o primeiro álbum de contrabaixo solo a ser colocado em circulação. Hoje com 83 anos de idade, Phillips voltou repetidas vezes ao formato, cada vinil ou CD consistindo numa nova entrada no diário das descobertas que foi fazendo ao longo de uma vida de pesquisa das possibilidades do seu instrumento. Se em algumas ocasiões o fez com outros contrabaixistas da grandeza de Dave Holland, Peter Kowald, Joelle Léandre e Barry Guy, o registo em solitário permitiu-lhe fazer contas consigo próprio e forjar ideias que foi aplicando com improvisadores de várias gerações, como Lee Konitz, Archie Shepp, Peter Brotzmann, Evan Parker e John Surman. Tocou algumas vezes com um português, Carlos “Zíngaro”.

Para ele, este trabalho representa simplesmente o «fim de um ciclo», mas o que aqui vem tem um carácter tão definitivo que já está a ser entendido como o testamento musical de um dos mais referenciais tocadores de violino contrabaixo da história do jazz. Se não há propriamente novidades nas faixas reunidas, o que nelas encontramos – em termos de alma, de lógica discursiva, de sentido rítmico e melódico, de busca – chega a píncaros da mais desarmante sublimação. O antigo parceiro de figuras como Eric Dolphy, Paul Bley, Jimmy Giuffre e Marion Brown, já desaparecidos do mundo dos vivos, não só chegou ao topo como está com os pés bem fincados nele.