David John Hull: “Call it Fair” (edição de autor)

Rui Eduardo Paes

Três dos membros dos Slow is Possible, grupo que se vai apresentar na próxima quinta-feira, 2 de Agosto, na John Zorn Special Edition do Jazz em Agosto (a saber: João Clemente, André Pontífice e Bruno Figueira, aos quais se junta um seu ex-participante, Patrick Ferreira), estão envolvidos no novo disco DIY do cantor, baixista e guitarrista David John Hull, músico de Londres residente na mesma Berlim em que Clemente e Pontífice habitam. Clemente é o produtor (o guitarrista e o violoncelista, André Pontífice, pertencem também a uma banda de Hull, Golden Dark), e a sua marca pessoal explica o facto de “Call it Fair” se afastar dos territórios em que normalmente encontramos a voz da folk psicadélica (a Wire chamar-lhe-ia “weird folk”) que protagoniza o álbum.

Continua a ser esse o ponto de partida, mas deparamo-nos aqui com aspectos de um certo pop-rock alternativo, tanto o histórico (os usos vocais e as ambiências ecoam aspectos dos cançonetismos de Robert Wyatt, do David Bowie dos inícios, de Syd Barrett ou de Bob Drake) como aquele a que se deu o nome de pós-rock, evocando figuras e bandas da cena de Chicago como Jim O’ Rourke, Sam Prekop, Gastr del Sol e The Sea and Cake. O que quer dizer que o formato canção é esticado, quando não mesmo dobrado, de modo a caberem elementos provenientes do jazz, da música contemporânea e do experimentalismo improvisado, tal como de resto acontece com os Slow is Possible. É como se ouvíssemos estes por um outro prisma, e com um mesmo nível – alto – de qualidade… Muito estes jovens músicos originários da Beira Interior têm para tirar da cartola, agora associando-se a gente de outras paragens com o mesmo espírito inquisitivo.