John Zorn: “Insurrection” (Tzadik)

Gonçalo Falcão

“Insurrection” é o disco que vai servir como uma luva aos amantes de prog rock. E se esta frase pode indiciar que a música vem guitarrada em escalas impossíveis e velocidades ultrassónicas, com melodias cheias de barroquismos e baterias com três metros de parafernália batuqueira – desenganem-se os leitores. O assunto é de nível.
Segundo Zorn, a inspiração para a escrita veio de escritores como J.G. Ballard, Samuel Beckett e Kurt Vonnegut, mas o primeiro tema indica um regresso aos Naked City: rápido, intenso, cheio mudanças e inflexões melódicas, com as guitarras em modo Al Di Meola. A passagem para o segundo tema e seguintes revela um clima ameno (cortado a meio com “The Atrocity Exhibition” e “Cat’s Cradle”) e uma ondulação de bandeira verde.
O disco foi feito a pensar nas guitarras de Julian Lage e Matt Hollenberg, os dois tecnicamente muito competentes. Lage radica na tradição jazzística e Hollenberg lidera vários grupos ligados ao “avant-garde metal” (ex: Cetus, Cleric, John Frum, A Stirring in the Noos, Shardik). Ao fogo de artifício guitarrístico soma-se a secção rítmica delicada, capaz de tocar com força, mas também de flutuar em percussões leves: Trevor Dunn no baixo e Kenny Grohowski na bateria. Apesar de os “press-releases” proporem grandes novidades, a verdade é que não encontramos nada para além do que já é conhecido. Alguns dos temas lentos soam demasiado a “O’o” e à linguagem melódica de Zorn, assente na escrita para cinema dos grandes compositores do género. Ouvidas as 10 faixas ficamos com um disco “listener-friendly”, apesar das algumas melodias mais espinhosas: “Insurrection” é mais um projecto sediado no rock, mas sem a faísca de novidade que tem sido introduzida por muitos grupos do Norte da Europa, com muita pop instrumental feita de melodias “vintage”. É nestes temas que a música resvala para o bocejo, com alguns pormenores que recordam pesadelos que se tiveram com discos da GRP (ex: “The Journal of Albion Moonlight” ou “Mason and Dixon”). Ficamos com uma colecção de temas estranha, pouco encaixada e irregular e com um disco para os completistas ou para a malta erudita ouvir nas férias em Cacela, mas que não vai resistir ao Verão.