Tania Giannouli / Rob Thorne: “Rewa” (Rattle)

Rui Eduardo Paes

A mesma procura de um diálogo intercultural por via da improvisação que providenciou este duo da pianista grega Tania Giannouli e do tocador de nga taonga puoro (o nome genérico que se dá aos instrumentos Maori da Nova Zelândia) Rob Thorne já tinha tornado possível o álbum que Evan Parker e Richard Nunns lançaram em 2001, “Rangirua”. Trata-se, no entanto, de algo bastante diferente, e não somente pelo facto de a matriz acentuadamente jazz que havia em Parker dar lugar em “Rewa” à fundamentalmente clássica de Giannouli, até porque em “Rengirua” não estava em causa um encontro da tradição Aoteraoa com a que teve o seu berço em New Orleans, e sim uma pesquisa, por vias diferentes, da elementaridade da criação musical espontânea. Neste novo disco o que se vai plasmando são mesmo memórias, voluntárias e involuntárias, do que há de mais profundo nos legados musicais das culturas Maori e grega, com rastos temporais que atravessam milénios.

Talvez por isso, o produtor, engenheiro de som e patrão da Rattle Records, Steve Garden, achou por bem esculpir as ressonâncias produzidas tanto pelo piano como pelos instrumentos de sopro que ouvimos. Porque esta é uma música que ecoa músicas que existiram em outros tempos – e tanto as que se foram preservando (Thorne, ele próprio de ascendência Maori, tem desenvolvido um notável trabalho a esse nível, e Giannouli sempre incorporou elementos da tradição popular grega nas suas composições e improvisações) como as que formalmente ficaram esquecidas mas de alguma maneira permanecem nos inconscientes dos dois intervenientes –, Garden faz com que ela também ressoe, prolongando-se cada nota em harmónicos que teimam em não desaparecer no ar. Ou seja, os temas recebem e lançam para diante o que resulta do «fluxo livre de eventos musicais não forçados, tal como acontecem no momento», para citar Tania Giannouli. No primeiro caso com algum grau de imperceptibilidade, porque as marcas do passado são indefiníveis, e no segundo algo metaforicamente, ainda que o “reverb” seja aqui um recurso processual e não um ornamento ou um mero factor simbólico. Não foi a única coisa que Steve Garden fez: as peças reunidas no CD resultam de montagens dos materiais registados pela dupla. Surgem tal como foram tocadas, em bruto, mas o que encontramos é o que Giannouli e Thorne consideram ser o que de mais essencial, mais grávido de implicações, de antiguidade e de futuro, surgiu no estúdio. Pois recomenda-se…