KUU!: “Lampedusa Lullaby” (ACT)

Rui Eduardo Paes

A alemã ACT é conhecida pela especial atenção que dá a pianistas (começam a contar-se pelos dedos com Joachim Kuhn, Vijay Iyer, Esbjorn Svensson, Michael Wollny, Yaron Herman e depois perdemo-nos), pelo que é com uma boa dose de ironia que nos deparamos com este quarteto em que figuram duas guitarras. Para mais sendo uma delas tocada por Frank Mobus, membro dos Azul de Carlos Bica, e a outra por Kalle Kalima, que ouvimos ainda agora no Jazz no Parque, integrando o muito cinematográfico conceito “spaghetti” do grupo Lucía Martínez & The Fearless, em dedilhações (o homem não usa palheta – só por vezes um “slide”) “folky”, “country” e até de uma espécie de blues havaiano que nos convidada a ir para a praia surfar. É como se tivéssemos entrado no paraíso europeu das seis cordas, com o bónus de também estarem incluídos Christian Lillinger, o mesmo baterista do Luís Lopes Lisbon-Berlin Trio, e a cantora / actriz Jelena Kuljic, que conhecemos com estes mesmos KUU! numa edição passada do Jazz im Goethe-Garten e de um “special guesting” com o grupo de Lopes na incontornável SMUP. Ciente do fantástico que é ter estes dois guitarristas no mesmo projecto, a promoção da editora refere que, nele, Mobus lança notas que mais parecem «deliciosos pingos de chuva», enquanto Kalima «esculpe o próprio ar», ambos colando as suas ferramentas de trabalho num «gigantesco e sensitivo meta-instrumento». Por uma vez que seja, a publicidade não é enganosa.

O que vem em “Lampedusa Lullaby” não é propriamente o habitual que Mobus e Kalima fazem, e isto porque, além das típicas e multicoloridas construções harmónicas de ambos, que se complementam como se desde sempre estivessem destinadas a tal, há algo na música do espírito do punk. Nesse aspecto, estamos mais no território de Lillinger e Kuljic, ele porque gosta de incluir os “riffs” do dito nas suas intricadas florações rítmicas e ela porque foi aí mesmo que começou a sua carreira, antes de se decidir pelo estudo do canto jazz, e nunca cortou com esse passado. Temos, pois, aqui um álbum de jazz punkizado, se bem que a atenção à melodia incorpore alguns aspectos da pop. O factor punk não é apenas uma questão de batida e de distorção: está igualmente marcado no alcance político do disco. Refere-se este ao drama dos refugiados, tendo a ilha de Lampedusa como palco e apontando o dedo tanto aos criminosos que lucram com o perigo de vida dos migrantes que tentam a travessia do Mediterrâneo como a uma Europa que se mostra incapaz de reconhecer o falhanço das suas políticas tradicionais. Podemos questionar se, para o jazz, não será um sinal de fraqueza que esta revalorização das questões sociais e humanas se faça pela mediação de outra tendência musical, mas o que importa mesmo é que o dito jazz volte a ter consciência e que esta se forme num contexto de tão elevada qualidade quanto este. Atente-se, pois, nas letras escritas por Kuljic, ela própria uma refugiada da guerra que assolou a ex-Jugoslávia na década de 1990, cantadas por uma «voz de aço e chocolate negro».