Javier Subatin: “Autotelic” (Sintoma Records)

Rui Eduardo Paes

Quando uma música reivindica como único propósito a sua própria exploração, escolhendo o seu autor para ela um nome vindo do Grego antigo como “Autotelic” para sublinhar que o seu fim está nela própria e não numa qualquer razão de ser que a transcenda, parece abusivo tecer quaisquer considerações sobre a mesma – qualquer frase que se escreva a propósito é, de algum modo, sair dela, mesmo que não faça mais do que procurar entendê-la, explicando-a para os outros. Acontece, porém, que pelo caminho Javier Subatin, guitarrista argentino residente em Portugal, coloca à sua música, e a si mesmo (porque a liberta da sua intencionalidade), algumas armadilhas. Todas elas implicam que saia da sua escrita (que saia de si), entregando as suas peças à improvisação e concretizando esta por meio de um trabalho colaborativo com João Paulo Esteves da Silva: é o duo formado com o pianista que estabelece o núcleo de tudo o que ouvimos, por vezes com o acrescento do saxofone tenor de Desidério Lázaro, do contrabaixo de André Rosinha e da bateria de Diogo Alexandre.

E tanto assim é que, se os títulos das peças reunidas, alinhadas desordenadamente (“#6”, “#2”, “#8”, “#3”, “#11”. “#5”, “#7”), são apenas algarismos, de modo a que os ditos não sejam interpretáveis ou condicionem a audição, o penúltimo, aquele que surge entre o “#5” e o “#7”, chama-se “# Solo” e, surpresa, não o é de todo. Ou seja, dá-nos ironicamente a pensar – supremo paradoxo – que os fluxos criativos a que assistimos devem muito à interacção com os seus colaboradores e ao modo como estes entendem o que lhes propõe. Dizendo de outro modo, que o “egoísmo” da música que se ouve vai contra o seu enquanto compositor. É verdade que nela estão as marcas pessoais de Subatin, designadamente o seu interesse pela música contemporânea (estudou electroacústica) e pela música popular argentina (estudou tango), mas este disco não é apenas de Javier Subatin, apesar de só o seu nome surgir na capa: é também, e muito, de Esteves da Silva e dos outros participantes. Outras ilações poderíamos tirar, para além daquela que nos comunica que a improvisação colectiva é a condição de um jazz auto-referente, mas enumerá-las seria, como afirmei no início, negar a mesmização desta proposta musical. Também Stravinsky considerava que a música só expressa os seus próprios sons e nada mais, mas no limite isso é negar o porquê da sua existência, seja este espiritual ou social, podendo tal perspectiva resultar em branqueamento. O tema “#Solo” parece ser a constatação deste dilema, minando deliciosamente todo o conceito que é aplicado.