Rafael Toral: “Saturn” (Pássaro Vago)

Rui Eduardo Paes

Agora que o seu Space Program está terminado, Rafael Toral vem expandindo os conceitos nele desenvolvidos em novas direcções – algumas delas encontramo-las já neste “Saturn”, disco gravado ao vivo na edição do festival MEIA de 2016 em que aos amplificadores transformados e aos osciladores daquele que é um dos nomes mais internacionais da música criativa portuguesa se junta a bateria e a percussão (com címbalos, gongos e sinos por ele próprio construídos) de um membro do seu Space Quartet, João Pais Filipe, que integra também formações dificilmente classificáveis (porque idiomática e estilisticamente híbridas) como HHY & The Macumbas, Mécanosphère e Pedra Contida.

Se a electrónica lo-fi de Toral continua aqui a utilizar as típicas lógicas de fraseado do jazz, muitas vezes remetendo-nos mesmo para o álbum “Interstellar Space” de John Coltrane e Rashied Ali (a temática cósmica não será, com certeza, uma coincidência – a última faixa dessa obra seminal tem “Saturn” como título, de resto –, se bem que o interesse do português pelo espaço vá muito para além do sideral), duas das três peças do CD exploram situações que não estavam no âmbito do projecto anteriormente desenvolvido. Em “Saturn 1” deparamo-nos com um “groove” assumidamente de jazz-rock e em “Saturn 2” há como que um regresso ao ambientalismo do Rafael Toral de “Violence of Discovery and Calm of Acceptance”. Com duas substanciais diferenças: a abordagem é muito mais orgânica e crua e Toral permitiu que Filipe deixasse a sua marca nos procedimentos. Só “Saturn 3” parece manter um vínculo com o Space Program e nela Toral escolhe um registo trompetístico que mais aproxima a música das suas grandes referências, uma pessoal (nas respirações e na discursividade não linear), Sei Miguel, e a outra estética (porque a tem como matriz), o free jazz.