Han: “Tuning the Invisible” (edição de autor)

Rui Eduardo Paes

Antes de existir o grupo pop Clã, um duo de adolescentes de Setúbal com o mesmo nome desenvolvia umas curiosas explorações musicais, um com a guitarra (Emídio Buchinho) e o outro (Vítor Joaquim) processando o que o primeiro fazia. Depois cada um seguiu o seu caminho, firmando as suas respectivas valias nos circuitos da música livremente improvisada e do experimentalismo electroacústico. Passados 32 anos, depois de esporádicos reencontros em colectivos com outros participantes, decidiram retomar os processos composicionais de então e ir para estúdio, escolhendo outra designação para o projecto: Han. “Tuning the Invisible” é o resultado, em alguns dos temas com os préstimos adicionais do violino de Carlos “Zíngaro” (numa intervenção de grande simbolismo, dado ser o pioneiro, em Portugal, do tipo de “atitude” que aqui se aplica), do violoncelo de Ulrich Mitzlaff (um frequente “compagnon de route” de ambos) e dos teclados de Nuno Canavarro, o antigo membro dos Street Kids e autor de uma obra seminal da electrónica, “Plux Quba”, cujo contributo para este CD é uma boa surpresa.

A música que ouvimos é, regra geral, introspectiva e melancólica. Continua a ter a improvisação e a experimentação como base de trabalho, mas descobrimos nela elementos que não são, de todo, característicos de tal abordagem: um ambientalismo cinematográfico que não desdenha o uso da melodia e da harmonia, remetendo-nos estas ora para a folk (muito presente em “Lament”) e para o rock (oiça-se, por exemplo, a guitarra em distorção de “Bliss”), ora para a música de câmara (“The Spirit of the Trees”), com vagas referências em Robert Fripp e em Fennesz. Joaquim sampla e trata electronicamente, em tempo real e com um impressionante sentido de oportunidade e de medida, aquilo que vai saindo da guitarra, aqui e ali adicionando pinceladas de órgão e trompete ou apontamentos sonoros que retira da manipulação de objectos ou de dispositivos analógicos e digitais, enquanto Buchinho se posiciona como o tronco da árvore que vai florescendo, num trabalho guitarrístico particularmente cativante. Em boa hora estes dois grandes músicos portugueses voltaram a juntar-se. O disco está aí, faltam os concertos, que já estão prometidos.