Susanne Paul’s Move String Quartet: “Short Stories” (Jazz Haus Musik)

Rui Eduardo Paes

O que obteríamos se, a um quarteto de cordas, juntássemos conceitos de ritmo (os do jazz e do rock) que não são propriamente os da música de câmara, ao mesmo tempo substituindo o segundo violino por um contrabaixo? Aquilo que neste “Short Stories” se propõe o Move String Quartet, grupo transnacional com base em Berlim liderado pela violoncelista e compositora germano-mexicana (nascida na Califórnia) Susanne Paul, que tem a particularidade de tocar um instrumento com cinco cordas, para si especialmente construído. Ouvimos as 10 “pequenas histórias” reunidas e logo verificamos que não ficam por aí as pontes para os universos musicais não clássicos: nele encontramos o contrabaixista português Carlos Bica (que contribui com três temas originalmente escritos para os Azul, “Iceland”, “Heranças” e “Believer”), a violetista Gerdur Gunnarsdottir, que conhecemos de um duo editado pela ECM com Claudio Puntin, e a violinista Marie-Theres Hartel, cujo currículo assinala colaborações com Lee Konitz, Albert Mangelsdorf, Joey Baron e Markus Stockhausen.

Ou seja, todos os intervenientes têm a dupla capacidade de bem interpretar as partituras e de sobre elas improvisar, o que fazem com uma rara desenvoltura neste tipo de enquadramento. A fórmula escolhida tem outras componentes e duas se destacam. Uma são as interacções internas estabelecidas entre, pelo menos, dois dos membros do quarteto, em cruzados desdobramentos de tarefas, o que significa que há mais coisas a acontecer dentro dos parâmetros gerais de cada peça, num efeito Matryoshka. Outra é o carácter imagético, cinematográfico mesmo, da música que vai acontecendo, com as emoções conjugadas a sugerirem quadros visuais – repare-se, por exemplo, em “Mirror Mirror” e “Horse”. Este camerismo “para o século XXI” não tem, pois, que ver unicamente com uma interiorização do “groove”, propondo-nos bem mais do que uma mera jazzificação ou rockização do classicismo.