Rodrigo Amado: “A History of Nothing” (Trost)

Rui Eduardo Paes

Uma história de nada só pode ser nada, a história como nada ou o nada como história. O título do novo disco de Rodrigo Amado tem uma carga irónica (cínica?) enorme, porque o que vem no CD (ou no LP, consoante a escolha feita pelo melómano) não só é muito, em termos de valor, como está carregado de história, de passado, de património e é com esses materiais que pretende criar uma música de agora. Este é o segundo tomo da associação do saxofonista português com Joe McPhee (uma figura dessa história aqui celebrada com uma piscadela de olho), Kent Kessler e Chris Corsano. Já o primeiro, “This is Our Language”, tinha esse recuo temporal, pelo tipo de abordagem, pela assunção do legado representado por McPhee e até pela referência indirecta que fazia a um disco essencial do espólio do jazz, “In All Languages”, de Ornette Coleman. Agora, torna-se ainda mais explícita.

A relação de Amado com o “continuum” do jazz é já bem conhecida, dentro de portas e a nível internacional. O seu estilo de sax tenor vem na sequência das terraplanagens feitas pelos maiorais do instrumento, as de Ben Webster, Coleman Hawkins, Lester Young, John Coltrane, Sonny Rollins, Albert Ayler, Archie Shepp e, claro, do próprio Joe McPhee, se bem que este surja aqui a tocar trompete de bolso e saxofone soprano. É um continuador desta linhagem, e daí que, mesmo colocando-se nos terrenos da chamada “música livremente improvisada”, o que o ouvimos fazer procura levar mais além as lógicas especificamente jazzísticas do fraseado, com o tipo de “drive”, o melodismo e o “stream of consciousness” que herdou dos gigantes. A versão em CD deste álbum inclui uma faixa extra que coloca, precisamente, McPhee no lugar do homenageado – em “Theory of Mind II” ele não toca, é “tocado”. E não passivamente, em conformidade com discos seminais como “Nation Time”, “Tenor” ou “As Serious as Your Life”, seguindo as lições que foi espalhando ao longo de décadas. Décadas em que não quis ser simplesmente uma referência, mas um músico a cavalgar o tempo e em constante reinvenção, como quando aderiu à “deep listening music” de Pauline Oliveros, ao noise da Nihilist Spasm Band ou ao rock da parceria de The Thing com Cato Salsa Experience. Se na qualidade de europeu, português, Rodrigo Amado parecia condenado a derivar, apenas, desta linguagem fundadora, o que mais ressalta deste trabalho é a sua autenticidade. A música é indubitavelmente de hoje, mas dela transparece uma vernaculidade que ilustra bem a importância das raízes nos cometimentos da invenção. Para tal, muito contribuem Kessler e Corsano, dois ilustres renovadores dos paradigmas do jazz.