Uivo Zebra: “Gancho” (A Besta)

Rui Eduardo Paes

Se o free jazz vingou como tendência musical com nome próprio na passagem da década de 1950 para a de 60, a designação “free rock” vem surgindo apenas para identificar um tipo de abordagem, ainda que os procedimentos aplicados no campo do rock não se distanciem muito daqueles que tiveram o jazz como contexto: a criação de uma música liberta de constrangimentos estruturais e formais. Talvez isto aconteça porque, na altura (anos 1990) em que o dito free rock começou a identificar-se como tal, já aquilo que se apontava como free jazz era mais um “approach” do que um estilo, situação que é agora comum quando o rótulo aparece. Pois estes Uivo Zebra são um trio de free rock nesse preciso sentido, mas com a curiosidade de assumir muito óbvias conexões com a referência free jazz.

O baixo de Hernâni Faustino tem a sua matriz na sonoridade iminentemente jazzística que se encontrava no blues-rock, no hard rock e no rock psicadélico dos Sessentas e Setentas, e em concordância com mais de Jack Bruce (Cream) do que de Jaco Pastorius (Weather Report) – ou seja, é bem diferente o que aqui faz do que com o contrabaixo ou o mesmo baixo eléctrico no Red Trio. Por seu lado, a guitarra de Jorge Nuno parece dever tanto a Sonny Sharrock como ao psych rock que toca com os Signs of the Silhouette ou até com os Dead Vortex, sem se fixar em qualquer desses modelos. Já a bateria de João Sousa é a que conhecemos dos ParPar ou dos Cardíaco, com uma sustentação nos “riffs” do punk que parece justificar o título “Gancho”. O que é curioso neste registo dos Uivo Zebra, aliás na linha do que ouvimos no homónimo álbum de estreia há pouco saído pela polaca Bocian Records, é que todas as eventuais conotações com o free jazz, ou mesmo com a chamada livre-improvisação (área em que normalmente encontramos Faustino e o próprio Nuno), são indirectas: o que predomina é o entendimento de “jam” de garagem que o rock teve no passado e que alguns têm procurado repor nos dias que correm. Brilhante.