Jazz from now

Peixe Frito / Dead Vortex

Jazz from now

Last Pork Records

texto Rui Eduardo Paes

Aqui estão mais dois álbuns de espanto da produção nacional no ano que vai correndo, publicados em simultâneo e com dois dos músicos envolvidos a tocarem em ambos, Luís Guerreiro e Pedro Santo. Um tem jazz no título, mas decompõe-no no interior, e o outro parece de rock, não sendo. Estivemos a ouvi-los…

Luís Guerreiro e Pedro Santo são as personagens comuns destes dois álbuns distintos nas suas respectivas identidades, mas com mais coincidências do que aquelas que possam ser captadas numa abordagem superficial. Aliás, o modo como um – “Jazz From Here”, dos Peixe Frito (foto acima) – lida com os formatos do jazz só em pormenor difere do tipo de relação que “Event Horizon / Redshift”, dos Dead Vortex, tem com o rock. Um e outro são incursões por esse tipo de improvisação que não caiu na esparrela de acreditar que uma filiação no improviso como estética conduz a uma música “não-idiomática”, ao mesmo tempo não se conformando com os ditames dos idiomas abraçados. Os Peixe Frito esticam o jazz até onde podem e querem e os Dead Vortex levam o rock para um estado de dissolução em que o que sobra é a energia. As vias e as ferramentas são diferentes (no caso da formação liderada por Paulo Chagas, Peixe Frito, tendo-as mesmo como fundamento do conceito aplicado), mas os resultados equivalem-se.

O “Jazz From Here” de que damos conta no primeiro caso funciona mais como um “jazz from now”, o “aqui” como um “agora” na lógica do espaço-tempo, e a própria capa de Daniela Chagas introduz o jogo a que Chagas, Guerreiro, Santo, Paulo Duarte e Alvaro Rosso se entregam. Vemos uma fotografia supostamente tirada em 1918, no mesmo dia em que, 100 anos depois, o quinteto foi para estúdio. Um grupo de senhoras com as vestimentas da época distribui-se à volta de uma mesa de jantar e outro de homens alinha-se no fundo. Parece tudo normal, mas uma melhor observação revela alguns pormenores que não batem certo: alguém segura na mão um iPhone, há um prato de sushi algures sobre a toalha e no fundo vê-se um vulto a tirar uma “selfie”. É um “clin d’oeil” alusivo ao que a música pretende fazer, quando finalmente chegamos a ela.

O jazz surge como mote e referência histórica, começando logo nos instantes iniciais da primeira faixa, “Coltrane’s Back Scratcher”, e sim, com uma descarada imitação do estilo de John Coltrane. Depressa a intriga que se constrói é conduzida para outros sítios, e designadamente os de uma free improv electroacústica, multitímbrica e abstracta, mas a alusão ao património jazzístico é recorrente. Em “My Neighbour’s Psychedelic Gathering” é Miles Davis o ícone relembrado. Mais adiante, em “Swing From the Zone”, o padrão de todos os distanciamentos é o factor rítmico por excelência do jazz, o swing. Os resultados tornam-se assaz curiosos e desafiantes – fica evidente que o foram para os músicos na altura da gravação e são-no também para nós, ouvintes, com a vantagem de que o jazz que vai emergindo ao longo deste CD não é “fake”, ao contrário do que sucedeu em incursões outras que procuraram exorcizar o género musical em questão, dos Lounge Lizards de John Lurie nos Estados Unidos aos Telectu do período “jazz mimético” em Portugal. Quando entram pelo jazz, estes cinco tocam mesmo jazz. O que não surpreende: os Peixe Frito foi sempre por aí que andaram. O que nos desarma é, até, o facto de esta edição nos apresentar uns Peixe Frito menos circunscritos aos aspectos formais do jazz.

Dead Vortex

O gradual recurso de Luís Guerreiro a processamentos de trompete e a dispositivos electrónicos no percurso dos Peixe Frito também não fazia adivinhar que o mesmo viesse a estar à frente de uma banda como Dead Vortex. Os dois membros desta para além do trompetista e do baterista, Jorge Nuno e André Calvário, pertencem a um grupo com nenhumas conotações com o electro-jazz ou com a EAI (Electro-Acoustic Improvisation): os Signs of the Silhouette, praticantes de um rock psicadélico totalmente improvisado. E se o elemento psych é chave na música do duplo álbum curiosamente lançado em simultâneo com “Jazz From Here”, o que encontramos em “Event Horizon / Redshift” assenta, sobretudo, no estilo stoner, com todas as contribuições punk e metal deste. É, no entanto, por demais óbvio que não se trata de stoner rock, tendência que não vem recorrendo à electrónica e que dispensa instrumentos de sopro – a não ser em excepções como as dos Black Bombaim com Peter Brotzmann e Rodrigo Amado. Ou seja, se as pontes com o jazz lançadas pelos Peixe Frito servem para mais além serem desfeitas e reerguidas, os Dead Vortex sabotam a matriz rock logo de imediato sem renegarem o que a dita tem de mais essencial, só nesse procedimento se distinguindo os tipos de abordagem entre os dois empreendimentos.

Por mais do que uma vez, nos dois discos que compõem a estreia deste quarteto, desvendamos o Miles Davis de “Bitches Brew”, “On the Corner” e “Live-Evil” nos fraseados quebrados de Guerreiro, mas tal como tudo o resto que idiomaticamente transparece, essa referência é sorvida pelo buraco negro representado pela capa da autoria do baixista, André Calvário, e anunciado pelo nome do projecto. Recursos sonoros como a distorção e o “fuzz” e estruturais como a utilização de “riffs” (ritmos repetitivos) também não procuram encenar um qualquer “fake rock”, mas se o propósito dos Peixe Frito é desconstrutivo / reconstrutivo, numa espécie de desmontagem e remontagem de componentes, o dos Dead Vortex anseia pela entropia e pelo carácter criativo que o princípio da destruição pode ter.

Os títulos dos temas são dados por algarismos negativos (“Event Horizon”) e positivos (“Redshift”), em gradações inspiradas pela termodinâmica, e o objectivo parece ser uma permeabilização da música à chamada “energia livre de Helmholtz”, definível como uma «grandeza que mensura a parcela de energia interna de um sistema que pode ser utilizada na forma de trabalho». Não há propriamente clímaxes ou explosões de dramatismo por aqui, e sim trabalho a resultar em energia e energia a resultar em mais trabalho, numa exploração desenfreada das possibilidades instrumentais em presença. Neste aspecto, se os Peixe Frito são meticulosos, os Dead Vortex preferem os “grand gestures”. Vai dar no mesmo: estamos perante duas excelentes obras, das melhores que no presente ano saíram já para os escaparates, por parte de músicos portugueses.

  • Jazz From Here

    Jazz From Here (Last Pork Records)

    Peixe Frito

    Paulo Chagas (flauta, saxofones soprano e alto); Luís Guerreiro (trompete, electrónica, taça tibetana); Paulo Duarte (guitarra eléctrica); Alvaro Rosso (contrabaixo); Pedro Santo (bateria)

  • Event Horizon / Redshift

    Event Horizon / Redshift (A Besta)

    Dead Vortex

    Luís Guerreiro (trompete, sintetizador, electrónica); Jorge Nuno (guitarra eléctrica); André Calvário (baixo eléctrico); Pedro Santo (bateria)