João Pedro Viegas / Roberto Del Piano: “Friendship in Milano” (Setola Di Maiale)

Gonçalo Falcão

A primeira alegria deste disco começa no seu acontecimento: dois “senhores de certa idade”, de dois países diferentes, que se mantêm interessados na música. São estas as coisas que fazem acreditar que a humanidade não tende para o mal ou para o egoísmo e que o mundo não é dos “empresários” angolanos. Dois músicos que acreditam ainda na possibilidade de descobrir novidades na abstracção, com sons pouco convencionais e, mais importante talvez, a acreditarem um no outro. Os músicos são João Pedro Viegas, que nos últimos anos tem sedimentado uma série de relações musicais em Itália, e Roberto Del Piano, de Milão: clarinete baixo e baixo eléctrico. As palavras podiam indiciar que é de sons graves/baixos que se trata, mas na verdade o registo global não é esse. Pus o disco no microscópio e analisei-o ao pormenor…

A gravação é seca, ouve-se a sala, não tem filtros nem tratamentos. Transporta-nos para um local que não conhecemos, mas sentimos que estamos perante o documento de uma ocorrência que os autores acharam importante partilharem. O CD arranca devagar, sussurrado, com a dupla a debitar sons estranhos e à procura daquele tipo de ligação que normalmente aparece por reacção. A música começa por impulsos. Subitamente, encontra um tema. É Viegas que propõe uma frase e o baixista resolve um acompanhamento. Usam-se vários tipos de ideias, desde as repetitivas às confrontacionais, em que o jogo de resposta dos improvisadores é provocado pelo parceiro com intempestividade e de modo afirmativo. Sente-se a vontade de os dois colaborarem, de encontrarem formas de fazer a música funcionar, mesmo quando, como no terceiro tema, os músicos se separam e seguem por caminhos difusos. Evitam-se os tiques típicos da improvisação, os ciclos de aceleração ou de intensidade: quando o clarinete fica mais afirmativo o baixo eléctrico assume-se como mais estuturante. Quando surgem canções espontâneas (exemplo: sexta faixa) com uma escala descendente no clarinete, o baixo dá um acompanhamento lógico e sem problemas em assumi-lo. Este não é um disco com electrónica nem virtuosismos técnicos; é um diálogo honesto em que cada um procura falar com o outro com o que tem, sem malabarismos ou procuras de afirmação pessoal. Houvesse mais assim e o mundo funcionava melhor.