pLoo: “Pele de Papel” (Carimbo Porta-Jazz)

Rui Eduardo Paes

Habitar «um lugar ecléctico onde o jazz, a música do mundo, a música improvisada e a música contemporânea pudessem coabitar» já tinha sido o propósito do primeiro álbum dos pLoo, lançado em 2015 (“Estereograma”), e logo aí se viu que não se tratava de world jazz ou de uma reaplicação da chamada fusion. Neste “Pele de Papel” isso é ainda mais claro, não obstante o início tocado em didgeridoo, um instrumento aborígene da Austrália. Assim como fica evidente que o mais importante na música concebida pelo baterista Paulo Costa para este quinteto com João Mortágua (saxofones), Daniel Dias (trombone), Eurico Costa (guitarra eléctrica) e Diogo Dinis (contrabaixo e baixo eléctrico) é, não o mencionado eclecticismo, mas a heterodoxia relativamente aos modelos instalados. Algo que de imediato se nota, embora o grupo acabe por não conseguir resistir à imposição estética e cultural (social também?) dos paradigmas do jazz que se considera a si mesmo “verdadeiro” - algo, aliás, que marca quase toda a comunidade de músicos que se reúnem sob a chancela Porta-Jazz, músicos esses que nunca se afastam demasiado das convenções.

Com “Epitáfio de Seikilos”, o disco começa atrevido, indo ao ponto de sobrepor registos com diferentes tempos e linhas melódicas condutoras, assim criando polirritmias e dissonâncias. O recurso nem sempre funciona, mas quando funciona é como se fossemos envolvidos por nuvens de música e arrebatados por uma sensação de vertigem. Podia ser a entrada imediata para um universo definitivamente estranho, mas não é: os temas seguintes, “Pong” e “Pele de Papel”, recolocam-nos no território da normalidade jazz. Só com “Reta da Meta” o que se prometera volta a ter expressão, abrindo o que se segue e, provavelmente, tendo o título que tem por isso mesmo. Ora, o que se segue (“Blues for Chango”) procura conciliar os dois parâmetros, com as duas partes de “Bêbado das Onze” a penderem depois para um lado (o bizarro) e “Ping” para o outro (o “normie”). Para estes ouvidos, é quando saem da caixa que os pLoo são realmente interessantes (outros acharão o contrário), mas o jogo que aqui se processa está não nisso, mas no entrar e sair e no sair e entrar: pode ser curioso acompanhar as tentativas de equilíbrio entre os dois planos, mas não tiramos grande substracto disso.