Joelle Léandre / Elisabeth Harnik: “Tender Music” (Trost Records)

Rui Eduardo Paes

É como se assistíssemos à actuação de um mágico que tira sucessivos coelhos da cartola. Podia não passar disso: coelhos a saírem da cartola, só para deixar a assistência de boca aberta, mas Joelle Léandre e Elisabeth Harnik conseguem fazer com que todos estes coelhos se tornem num só. É o mesmo coelho que volta a sair do esconderijo, uma vez e outra e outra. Ou seja, o concerto que reuniu a contrabaixista e a pianista em Graz, na Áustria, em 2016, para uma sessão de música integralmente improvisada, pode ter resultado de uma multiplicidade de materiais do universo musical habitado por ambas (ou melhor: do universo de referências que cada uma tem dentro de si), mas com tudo isso elas conseguiram algo de uma coerência e de uma consistência a toda a prova.

Enquanto Léandre busca, sobretudo, argumentos no património da música erudita (misturando vocabulários e respectivas gramáticas), passando de técnicas convencionais para outras extensivas, experimentais, com a rapidez de um piscar de olhos, Harnik vai ao baú das variantes do bop (be bop, hard bop, cool, pós-bop) e encadeia os seus motivos-tipo em lógicas não-lineares de exploração de componentes. Nesse processo, é tão fiel nas adopções históricas quanto inventiva na criação de algo que está para além das ditas. Não surpreende que outros músicos tenham querido contribuir para a edição do registo documental dessa performance: Jean-Marc Foussat fez a mistura e a masterização, Lasse Marhaug desenhou a capa e Ken Vandermark escreveu as “liner notes”. Este é um disco assombroso, magistral, e inclusive pelo facto de, na sua inaudita transparência, vermos como é que os coelhos saem da cartola e descobrirmos nos vários puxares de orelhas que são todos apenas um e que tudo o mais é apenas uma ilusão. Ilusão nossa, diga-se, não do pretenso ilusionista, porque se achamos que são muitas as músicas que vêm aqui, elas mostram que música só há uma.