Parlato / Chagas / Lenglet / Gibbs: “Wasteland” (Setola di Maiale)

Rui Eduardo Paes

Num tempo de cruzamentos das linguagens musicais mais diversas em contexto de improvisação, o quarteto transnacional formado por Rosa Parlato (Itália), Paulo Chagas (Portugal), Philippe Lenglet (França) e Steve Gibbs (Estados Unidos) traça uma transversal entre as mais opostas, no caso a música de câmara e o noise. Ao fazê-lo, dá corpo a algo de mais complicado de enunciar, pois o que ouvimos concilia o que pode haver de mais primário na criação musical, por vezes sugerindo as músicas ameríndias, com a complexidade trazida pelo que veio depois do pós-serialismo. E se os instrumentos principais que ouvimos neste “Wasteland”, disco que se tornou no nome do grupo, são a flauta (Parlato), o oboé (Chagas), a guitarra eléctrica (Lenglet) e a guitarra clássica (em versão de oito cordas, Gibbs), a eles está constantemente associada uma parafernália de objectos produtores de som, alguma electrónica e recursos como a água e uma hichiriki, flauta japonesa munida de dupla palheta, tocada pelo interveniente do concelho de Peniche. Ou seja, a caracterização camerística é interferida por elaborações tímbricas quase de “bricolage”.

Esse factor de “interferência” é essencial no que ouvimos e resulta do choque das próprias proveniências dos músicos: Parlato vem das músicas clássica e barroca, Chagas passou pelo rock progressivo e pelo jazz (na memória deste crítico está um concerto em que tocou temas de Charlie Parker), Lenglet fez todo um percurso dos blues e da folk até ao experimentalismo e Gibbs tem um preenchido currículo nos domínios da ambient music e da escrita para cinema. O que resulta não é propriamente uma fusão ou uma colagem de tudo isso, mas algo que incorpora a polpa de cada uma dessas contribuições, dispensando as cascas, os aspectos formais, e se situa mais além: uma música que regressa aos primórdios da articulação sonora para neles procurar um futuro alternativo. Se pelo caminho os Wasteland desafiam todos os cânones de beleza estabelecidos, é de beleza ainda que se trata. A beleza que imaginamos num outro planeta, como a floresta que vemos no início do filme realizado por John Coney e protagonizado por Sun Ra, “Space is the Place”.