Beatriz Nunes: “Canto Primeiro” (Sintoma Records)

Rui Eduardo Paes

O formato de “Canto Primeiro”, o álbum debutante de Beatriz Nunes, é o mesmo que Cristina Branco deixou em “Abril”, disco de versões do cancioneiro de José Afonso com cores jazzísticas emprestadas por músicos como Mário Delgado, Bernardo Moreira e Alexandre Frazão. Se tal referência situou a jovem cantora num âmbito que convidava a maiores explorações, tinha também o perigo – dada a imensa qualidade do empreendimento da sobretudo fadista – de menorizar por comparação quaisquer tentativas que surgissem na mesma linha. Essa possibilidade foi vencida pela também membro dos Madredeus (Nunes), e só isso bastaria para este ser um trabalho de audição recomendável.

Colocado no contexto da chamada MPP (música popular portuguesa), com arranjos de alusões clássicas em que surgem um quarteto de cordas e uma flauta, o jazz que se ouve é aqui mais explícito e mais cru, e tanto na voz como no acompanhamento instrumental de Luís Barrigas (piano), Mário Franco (contrabaixo) e Jorge Moniz (bateria), com bons e largos solos dos dois primeiros. Surgem Zeca novamente, com “Canção da Paciência”, e um tema tradicional alentejano, “Aurora Tem Um Menino”, segundo leitura de Moniz, e com o mesmo tipo de abordagem estão também uma composição de Afonso Pais para o poema “Pára-me de Repente o Pensamento”, de Ângelo de Lima, e canções da autoria de Beatriz. O registo vocal desta não varia muito ao longo do CD, dada a opção por um canto recitativo que, embora consistente com o propósito de manter uma «sonoridade limpa e cristalina» (termos utilizados na apresentação do projecto), acaba por limitar as possibilidades existentes. Ainda assim, não poderia ter começado melhor o percurso discográfico que se espera, daqui por diante, desta voz do Barreiro.