André Fernandes’ Centauri: “Draco” (Nischo)

Rui Eduardo Paes

Apesar de todo o espaço que dá à improvisação e ao que na invenção musical é empírico e instintivo (para utilizar termos do próprio André Fernandes), este é um projecto de composição. Como tal, não surpreende que traga consigo um conceito e que este tenha contornos não musicais, inspirados tanto na mitologia universal do dragão e na astrologia (é esse o signo do líder guitarrista) como na astronomia, e designadamente na constelação Draco, título do disco, e nas estrelas Alpha e Proxima do grupo Centauri, nome dado à formação. «A espiritualidade está ligada à ciência e a ciência é, talvez, a própria espiritualidade», defende a banda que com este disco se estreia, afirmando a arte, também ela, como uma ciência. Será isso que explica o carácter misterioso e introspectivo dos sete temas reunidos, inclusive os mais intensos e moldados pelo rock (entre eles uma excelente versão de “Finger”, canção de Ty Segall, dos Fuzz).

No que à música e à escrita propriamente dita respeita, denota-se uma especial atenção às formas como os dois instrumentos melódicos – os saxofones de João Mortágua e José Pedro Coelho – se podem relacionar. Ouvimo-los a procurarem uma dimensão orquestral, feita de uníssonos e contrapontos, mas também a insistirem na fórmula do duplo solo, alturas em que quaisquer confluências antes construídas deliciosamente se desfazem. Pelo caminho é dado um igualmente generoso lastro às propriedades harmónicas e “noisy” da guitarra, mediante processamentos de sinal, “delays” e fundos em “drone” que nos remetem tanto para a música electrónica paisagística como para a função que a tambura desempenha na música clássica indiana: a personificação do silêncio, aqui claramente aludindo ao silêncio do cosmos. Tudo isto é suportado por uma rítmica tão vigorosa quanto subtil que se alimenta do melhor de dois mundos, o do jazz e o do rock, nas pessoas do contrabaixista Francisco Brito e do baterista João Pereira. Caso para dizer que André Fernandes mais uma vez acertou na mouche.