The Heat Death: “The Glenn Miller Sessions” (Clean Feed)

Gonçalo Falcão

Nesta actualidade em hiper-ventilação, a ideia de editar três horas de música é heróica: para os músicos que as gravaram (Kjetil Møster, Martin Küchen, Mats Aleklint, Ola Høyer, Dag Erik Knedal Andersen) e para a editora que custeia o álbum triplo em questão. Pode ser um heroísmo quixotesco, como escreve Guy Peters no texto que acompanha os CDs, admitir que ainda há pessoas que 1) compram discos e 2) conseguem estar três horas a ouvir música nos dias de hoje. Ouvir ouvir. Sem telemóveis nem internets. Ouvir só. Seguir os percursos dos instrumentos, ouvir a música, estar atento aos jogos de resposta, às ideias que são lançadas. Ouvir o que a bateria está a fazer e como é que o saxofone sai do buraco onde se meteu. E o que tem Glenn Miller que ver com o funk seco e áspero dos Heat Death? A verdade é que não sei: o grupo nem sequer toca música do compositor americano; é um grupo ligeiramente orquestral (muito ligeiramente), com quatro sopros, contrabaixo e bateria. Mas podemos ensaiar um ponto de ligação: a crítica de jazz mantém-se, em muitos casos, racista. O jazz, para ser swingante, tem de ser negro, e para ser bom tem de ser americano. E no entanto, estes músicos são brancos e noruegueses e têm uma força e um “drive” notáveis.

Glenn Miller conseguiu 23 primeiros lugares nos “tops” em quatro anos, o que é mais do que alcançaram Elvis Presley (18) ou os Beatles (20). A crítica não gostou do trabalho do trombonista e chefe de orquestra: a sua banda estava demasiado ensaiada e tocava com um rigor excessivo. Era pouco quente, pouco gingada e demasiado “branca”. Miller tocava e ensaiava muito. E é este, provavelmente, outro elo possível para descodificar o título deste disco, pois aqui não ouvimos nem um cheirinho de "In the Mood", "Moonlight Serenade", "Pennsylvania 6-5000", "Chattanooga Choo Choo", "Tuxedo Junction" ou "Elmer's Tune". O que ouvimos é um quinteto brutal com bateria, contrabaixo, trombone e saxofones. Não é uma “big band”, mas tem um som enorme. Ouvimos ecos de Roland Kirk no ambiente festivo e ritmos fortíssimos com um baterista inteligente, focado e sem tiques de “show bizz”. Ouvimos uma música improvisada que procura frequentemente uma lógica comum e embarca em temas com sentido “funky” e um encanto de novidade, pois é anguloso e seco em vez de gorduroso e elástico, como o funk de que nos habituámos a gostar. Um grande álbum que merece destaque entre as edições que têm surgido neste primeiro trimestre de 2018.