Demian Cabaud: “Astah” (Carimbo Porta-Jazz)

Rui Eduardo Paes

O novo título do argentino tornado portuense Demian Cabaud reflecte as suas recentes colaborações com músicos da vizinha Galiza como o pianista Xan Campos e o baterista Iago Fernández (com o reforço da voz de Angela Cervantes na terceira faixa, “Vidala”) e com o veterano Jeff Williams (sim, são duas as baterias em presença). “Astah” é a palavra Quichua (a língua dos nativos do Norte da Argentina) para “levar” ou “transportar”, e aplica-se muito bem àquele que é o seu disco mais latino-americano até à data. A entrega do saxofone tenor ao cubano Ariel Bringuez liga mais o que ouvimos à herança coltraneana, mas esta está sobretudo patente nas atmosferas que se vão criando. Tais atmosferas são o resultado, a “astah”, do cruzamento de uma leitura do período cósmico de John Coltrane (aqui e ali irrompendo alguma coisa de Pharoah Sanders) com outra daquele que o antecedeu no percurso dessa fundamental figura histórica do jazz, marcado pelo bop e pelo hard bop, mas não se ficam por aí. O conceito, a escrita e a sua interpretação, as improvisações, a atitude, não são revivalistas nem passivas face a tal património, procuram isso sim levar este a novos desenlaces. Não se trata de free bop, mas o que aqui vem é com certeza um curioso “statement” pós-bop / pós-free…

É a um mergulho no mundo sonoro do Sul da América que somos convidados a acompanhar e este faz-se por via dos conteúdos, que não propriamente das formas, preferindo um processo de descoberta das essências à segurança dos invólucros. Os orientalismos de Coltrane são dispensados, surgindo no seu lugar um imaginário de floresta chuvosa. O fundo cerrado de peles e pratos contribui decisivamente para esse essencialismo tão geograficamente realista quanto virtual e idealizado, mas é sem surpresa que, no alinhamento dos temas, irrompe em “Cartas de Amor” o contrabaixo solo de Cabaud, se bem que no final se acrescentem pequenos elementos percussivos. Para todos os efeitos, este é o imaginário do seu autor, e só ele – nem mesmo Bringuez – poderia transmitir essa visão aos seus companheiros. Que o tenha feito sem invocar o estereótipo da argentinidade jazzística Gato Barbieri já seria muito bom, mas há tudo o resto.