Desidério Lázaro: “Moving” (Sintoma Records)

Rui Eduardo Paes

E ei-lo, já a circular (o lançamento oficial está marcado para 24 de Janeiro, mas podem dar com ele no Spotify), o novo disco de Desidério Lázaro. Um disco que pouco tem que ver com os anteriores, confirmando que o saxofonista e compositor não se contenta com a repetição de fórmulas, mesmo que estas tenham sido de sucesso, preferindo a procura de novas situações. Um disco, também, que é muitas coisas, não seguindo por um só caminho. O que quer dizer que o tema-título, “Moving”, aquele que foi dado a conhecer publicamente de antemão, não define na sua densa, e particularmente intensa, abordagem rock-funk-jazz o que vem no resto do álbum. A tendência deste é, até, para um jazz ambiental profusamente colorido pela guitarra suja e cheia de efeitos de João Firmino, um elemento fulcral nos resultados obtidos.

Mas nem esse ambientalismo jazz é unívoco. Se no quase psicadélico “Introspective” acaba por ser mais aéreo do que interiorista, colocando fora, no ar, o que está dentro, em “Courage” (a composição rival de “Moving” no alinhamento) torna-se imersivo e mergulha-nos em águas escuras que se vão adensando à medida que o tema tem desenvolvimento, puxando-nos cada vez mais para as profundezas. E se em “Burned Conscience” o contrabaixo introdutório (Francisco Brito) nos fixa num determinado “pacing”, a bateria de Joel Silva segue mais adiante, nervosa, e o sax tenor e a guitarra deixam-se ficar para trás, como numa sobreposição de paisagens videográficas que procuram encaixar-se, para em “Lullaby” se ceder a uma “mood music” que não pretende mais do que corresponder à intenção, no caso ilustrando os prazeres da paternidade recentemente descobertos por Lázaro (é ele que vemos na capa, com o filho pela mão, numa ida à praia). Dentro das muitas coisas que é este novo trabalho, está o quase fado de “Hidden Pain” e o camp rock, sugestivo de uma noite à volta da fogueira, de “Memories of a Forgotten Past”, com Firmino a dobrar numa guitarra acústica de dedilhares “folky”. O fim surge com um ascensional “Reconciliation”, que começa por parecer uma balada para se ir metamorfoseando numa espécie de prog-metal. Melódico, mas encharcado em distorção guitarrística. Em suma, uma delícia para os ouvidos.