André Rosinha: “Pórtico” (Robalo)

Rui Eduardo Paes

Logo para começar o ano, eis um excelente disco a vaticinar boas colheitas para os próximos meses. E se a qualidade a que o jazz nacional, ou pelo menos algum dele, já não surpreende, o que espanta é o facto de o contrabaixista André Rosinha o conseguir logo na obra com que se estreia como líder. Porque este é um projecto pessoal, são de sua autoria as composições que em “Pórtico” se alinham, mas depressa percebemos que a escrita que faz mover o grupo aqui reunido – na linha que vem caracterizando esta música no nosso país e que já definiu um estilo – está totalmente ao serviço dos desempenhos instrumentais do próprio Rosinha e de Albert Cirera (saxofones tenor e soprano), João Barradas (acordeão e acordeão Midi), Eduardo Cardinho (vibrafone) e Bruno Pedroso (bateria), não pretendendo mais do que essa funcionalidade.

Este é um álbum de improvisações e de improvisadores, sendo brilhantes muitos dos solos que se vão sucedendo e exemplar o trabalho colectivo que se constrói. Rosinha cobre muito bem os dois planos, garantindo com Pedroso a força motriz dos acontecimentos e tomando a dianteira com o seu contrabaixo quando a música pede esse foco, mas o que nos arrebata mesmo são as combinações entre Cirera, Barradas e Cardinho. A especial química entre os dois últimos já vinha conhecida dos Home, mas estende-se neste caso ao músico catalão residente em Lisboa de uma forma que não prevíamos, confirmando não só as enormes capacidades musicais deste como a sua adaptabilidade a qualquer tipo de situação. O carácter melódico da música constitui um motivo de agradabilidade, é certo, mas o que mais importa é o fogo que emana destes temas, e esse pouco tem que ver com questões de forma, e sim com expressão. Ora, a expressão ou sai assumida, autêntica e afirmativa ou dissipa-se no caminho até nós. No presente CD, atinge-nos directamente no estômago.