João Espadinha: “Kill the Boy” (Sintoma Records)

Rui Eduardo Paes

Se nem sempre um primeiro disco nos dá a medida certa do talento de um músico, verdade é que, no contexto do jazz português, já há um bom número de casos em que um registo de estreia introduz de imediato uma bitola alta que obriga quem o coloca em circulação a cumprir as expectativas criadas. Mais uma vez tal acontece com o álbum debutante de João Espadinha, que não mais poderá ser apontado simplesmente como o irmão de Joana, a cantora com o mesmo apelido. Fica muito claro para quem ouve que este é um passo inicial, mas João não pressupôs mais do que isso: “Kill the Boy” é uma citação do romance “A Feast for Crows” de G.R.R. Martin, o quarto volume da série “A Song of Ice and Fire”, na qual se inspira a popular série televisiva “Game of Thrones”, e é o começo de uma frase que continua com «and let the man be born». Com este título o guitarrista situa-se no final de um ciclo, o do jovem estudante que compôs as peças reunidas no CD quando estava na Holanda a tirar a licenciatura, e no começo de outro, o de um adulto que quer fazer da música a sua vida. Uma postura pessoal que é todo um conceito, bastante meditada (os temas são, regra geral, introspectivos) e reveladora de um pouco habitual grau de humildade.

Com um estilo guitarrístico algo devedor a Bill Frisell, e uma visão musical que denota influências tanto de Ambrose Akinmusire como de Brad Mehldau, o que talvez explique os papéis que nela deixa ao trompetista espanhol Bruno Calvo e ao pianista João Pedro Coelho, João Espadinha coloca a guitarra ao serviço do grupo e das suas composições. Estas servem como mote para a improvisação, não complicando as tramas, pois o que claramente lhe interessa são as dinâmicas conjuntas e o que cada um dos participantes pode introduzir de seu. São eles, além dos já referidos, Nicolò Ricci (saxofone tenor), Giuseppe Romagnoli (contrabaixo) e Andreu Pitarch (bateria), instrumentistas que conheceu no Conservatório de Amesterdão, a que se acrescentam as vozes de Joana Espadinha em “Tema para um Fim” e de Mariana Nunes em “6th Floor”. Resulta um jazz que é “moody” sem ser açucarado, com a desenvoltura de quem soube escapar aos espartilhos do academismo. Estaremos atentos ao que se segue…