Albert Cirera: “Lisboa’s Work” (Multikulti Project)

Rui Eduardo Paes

Radicado desde há uns anos em Lisboa, o catalão Albert Cirera tornou-se numa figura essencial da cena portuguesa do jazz e da música improvisada, ainda que passe algumas temporadas em Barcelona, ocupando uma posição igualmente fulcral nos circuitos da cidade, e viaje frequentemente para outros países. No nosso contexto, é habitual encontrá-lo tanto em formações conotadas com o “mainstream” como com a “vanguarda” (se é que ambos esses termos ainda têm aplicação válida nos dias que correm), sendo um dos poucos músicos que por cá ignoram as fronteiras artificiais que separam os dois âmbitos. “Lisboa’s Work” documenta o trabalho que vem desenvolvendo entre nós com os seus saxofones, numa situação em que raramente o vamos encontrando: o solo.

O CD é como que um compêndio de técnicas saxofonísticas alternativas, no caso do tenor com ou sem preparações (isto é, contando ou não com a introdução de objectos dentro da campânula do instrumento, a fim de lhe alterar – por vezes drasticamente – a sonoridade). Borbulhares de água ou saliva equivalentes ao que vamos ouvindo pelos lados do reducionismo mais experimental, não pertencendo Cirera a essa tendência (assim como não cabe especificamente em nenhuma), “slap tongues”, utilizações da respiração circular e outros processos vão-se sucedendo ao longo das 11 faixas do disco. A música resultante é, por vezes, algo árida, mas o sentido narrativo, a fluidez, o sentido de pesquisa das possibilidades existentes, a constante renovação de argumentos e recursos, mantêm o nosso interesse desperto do primeiro ao último minuto e confirmam o nome de Albert Cirera como um dos mais importantes cultores da arte do saxofone na Europa (e no mundo) da actualidade. Em boa hora a música criativa lisboeta o adoptou como um dos seus.