Phicus: “Plom” (Multikulti Project)

Rui Eduardo Paes

Eis um disco que vai directo para o topo da lista dos melhores de 2017. Baseado em Barcelona, o trio Phicus tem ligações directas ou indirectas com a cena portuguesa da improvisação, muito embora esta edição seja polaca (coisas do mundo global em que vivemos): Vasco Trilla, o baterista, é luso-catalão e por cá o ouvimos e vemos habitualmente, seja por meio das suas associações a Ernesto Rodrigues (e com ele a Miguel Mira e Luís Lopes) em discos da Creative Sources ou por integrar o trio que partilha com Hernâni Faustino e Yedo Gibson, saxofonista brasileiro radicado em Colares. Ferran Fages, o guitarrista, passou por uma longa colaboração com o acordeonista Alfredo Costa Monteiro, portista residente na Catalunha. Só Alex Reviriego, o contrabaixista, é por cá menos conhecido, mas encontramo-lo com Trilla num grupo irmão deste, Volga.

O que imediatamente nos cativa neste “Plom” (“chumbo” em Português) é a sua abordagem incaracterística à improvisação, fugindo continuamente aos modelos instituídos tanto no campo da chamada “música improvisada” como no do free jazz, se bem que partilhe aspectos de uma e do outro. A guitarra soa como um Sonny Sharrock que tenha trocado o fascínio por Jimi Hendrix pelo punk dos The Ex. O contrabaixo remete-nos para um Peter Kowald mediado pelas alucinações de Ingebrigt Aker Flaten nos The Thing. A bateria não o é propriamente, mas um arsenal percussivo que nos lembra Eddie Prévost no contexto dos AMM, ainda que com foco em vibrações de metal contra metal. Quando a música aterra em pleno jazzcore, com carradas de distorção e uma energia assumidamente rock, entramos logo de seguida em paisagens texturais abstractas não estranhas ao pós-serialismo erudito ou ao experimentalismo electrónico. Comparar o que aqui vem com algo que já tenha sido feito não é mais do que um exercício visando um entendimento racional – depende dos ouvidos que escutam e da necessidade de contextualizar a música. Melhor é a definição que os Phicus dão do que fazem: uma especulação com o silêncio e o ruído, um re-arranjo do timbre, um escavar da tradição para explorar um universo harmónico próprio, «forjado com a energia de uma floresta em chamas onde apenas umas folhas lanceoladas e brilhantes sobrevivem». Magnífico e a merecer todas as estrelas do firmamento, que não apenas cinco!