Miguel Ângelo: “I Think I’m Going to Eat Dessert” (Creative Sources)

Rui Eduardo Paes

Ora aqui está mais um exemplo de como, no campo da improvisação e do jazz, as diferentes abordagens vão convergindo num mesmo caudal, avolumando este sem outras diversificações que não as naturais numa música que se pretende efectivamente livre. Miguel Ângelo, figura destacada da Porta-Jazz, líder do Miguel Ângelo Quarteto (o mesmo do celebrado “A Vida de X”) e membro de formações como Ensemble Super Moderne, Pedro Neves Trio e MAP, acaba de lançar um álbum de contrabaixo a solo na Creative Sources, etiqueta conhecida pelas suas edições de carácter exploratório. Este “I Think I’m Going to Eat Dessert”, metaforicamente se referindo àquele momento, após uma refeição, em que pensamos se devemos ou não comer sobremesa. Ângelo optou por o fazer, apenas motivado pela vontade de assim obter «sensações adicionais de sabor».

Em boa hora o decidiu, pois está aqui um dos grandes discos de 2017, um ano que muito profícuo tem sido no que à produção nacional de qualidade diz respeito. Todas as 11 faixas são preenchidas por improvisações integrais, regra geral curtas e com um carácter introspectivo e investigatório que plenamente justifica o facto de três das “peças” se intitularem, simplesmente, “Meditation”, com um algarismo cardinal a distingui-las. Um disco a solo corre o risco da monotonia e da repetição, mas este mantém-nos o interesse do início ao fim, sempre com ideias novas e situações de que não estávamos à espera. E se as ditas “Meditations” funcionam como se um microscópio fosse aplicado sobre o contrabaixo, parecendo aproximar-nos dele fisicamente, a conclusão faz-se com a colocação diante de nós de um fresco que exige à nossa observação alguma distância: “Children’s Playground” junta várias camadas, em sobregravação, processo que torna o improvisado numa composição. E tem outra mensagem: a de que fazer música com este gosto, com este evidente divertimento, é como voltar a ser criança e brincar.