Rafael Toral: “Moon Field” (Room40)

Rui Eduardo Paes

Lançado pela mesma editora que tem no seu catálogo discos de Lawrence English, Janek Schaefer, David Toop e Tim Hecker, a australiana Room40, o novo álbum de Rafael Toral é uma obra de transição, transportando a música que o português vinha criando, há década e meia, com o Space Program para outra fase que ainda não é possível perceber como se concretizará. O que se verifica, com este “Moon Field”, é que há uma parcial reconciliação com o passado ambientalista de Toral, se bem que tal “regresso” já não evidencie as influências cruzadas de Brian Eno, Phill Niblock e My Bloody Valentine. O que aqui vem é uma tomada de testemunho do clássico da electrónica “Silver Apples of the Moon”, de Morton Subotnick, ainda que o carácter retro e pré-“computer era” adoptado, uma derivação da fórmula “free jazz electrónico” da série Space ainda com a discursividade-tipo de Sei Miguel (trompetista com quem o músico colaborou longamente), mostre também as marcas da tendência kosmische do rock alemão da década de 1970 – o que, de resto, explica o melodismo de algumas passagens.

O CD foi gravado pelo Space Collective 3 (Toral em vários dispositivos com Riccardo Dillon Wanke num piano eléctrico muito processado e Ricardo Webbens em sintetizadores modulares e analógicos) porque este era para ser mais um episódio do conceito que vinha explorando. Só que a música parou, preferindo o não-desenvolvimentismo das obras de Toral no período em que o seu instrumento principal era a guitarra, e acabou até por parecer mais espacial e mais banda-sonora de ficção científica do que era. Há uma outra mudança: os espaços de silêncio que caracterizavam o mais recente Rafael Toral são agora ocupados por um mantra de estática. Para já, as novidades introduzidas são tão cativantes quanto intrigantes, muito prometendo ainda que nada fique já afirmado. A seguir com toda a atenção…