Do Androids Dream of Electric Guitars?

Vítor Rua and The Metaphysical Angels: “Do Androids Dream of Electric Guitars?” (Clean Feed)

Clean Feed

Gonçalo Falcão

Creio já não ser necessário alongar-me muito na apresentação de Vítor Rua, fundador dos GNR e depois dos Telectu, com uma actividade musical variada que vai da composição contemporânea ao rock. Desde a separação do duo Telectu que Rua tem tocado e composto em inúmeros formatos, numa profusão de edições difíceis de seguir, disponíveis não só nas plataformas “online” como em formatos físicos. Toda esta produção é trabalhosa de catalogar e muito irregular em termos estilísticos e formais, compreendendo a “canção de intervenção pimba”, a escrita para orquestra e o solo.

Assim, é preciso criar um espaço, um silêncio, para introduzir este novo trabalho lançado pela Clean Feed. Não é mais um dos muitos que Rua tem editado; será, provavelmente, o seu disco mais importante até hoje (mesmo contanto com “Vydia, “Pós-GNR”, etc.). O nome da editora ajuda-nos desde logo a criar uma âncora com o jazz e, de facto, é esse o enquadramento de “Do Androids Dream of Electric Guitars?”, um álbum duplo que mostra duas abordagens ao mesmo tema: uma só em guitarras e a outra em grupo (guitarra, contrabaixo, bateria,  piano, trompete e clarinete).

É um duplo especial, pois raras vezes sentimos, ao ouvir uma gravação, que ela dá um passo em frente, que acrescenta uma ideia nova. Quero com isto dizer que este álbum propõe uma abordagem ao jazz que ainda não tinha sido feita, abrindo uma nova gaveta. Discos destes não aparecem todos os anos e se uso a palavra “jazz” faço-o consciente de que, se esta é a matriz fundamental desta música, como de tantos outros trabalhos de Rua, também podia ser classificada no rock ou na música contemporânea para guitarra, sem grandes inquietações.

“Do Androids Dream of Electric Guitars?” apresenta uma música vertical dentro de um processo inevitavelmente horizontal que é o da natureza própria da música (sons no tempo). São duas e diferentes as abordagens a esta ideia. O primeiro disco é apenas de guitarras e permite-nos perceber com mais clareza a ideia da “música vertical”: uma guitarra acústica, duas eléctricas e uma baixo alinham as notas verticalmente, ou seja, cumprem com uma pauta rítmica e melódica, ainda que com grande liberdade. Imagine-se uma linha de tempo por onde vão passando indicações para os músicos tocarem e que eles respeitam essa indicação com uma vontade de alinharem verticalmente, de somarem sons uníssonos, sem nunca o fazerem totalmente. Uma espécie de “harmolodics plus”.

No primeiro CD, todas as guitarras foram tocadas por Rua, usando “overdubbing”. Os temas têm uma sinceridade quase ameninada, que lhe reconhecemos desde “Portugal na CEE” e que vem até às suas composições para orquestra: melodias que não têm medo de soar bonitas e simples, com “moldura”, como diria o guitarrista. O segundo CD mostra-nos o modo como estes mesmos temas soam ao serem tocados por um grupo. Gravado em sexteto com os Metaphysical Angels – Hernâni Faustino, Luís San Payo,  Manuel Guimarães, Nuno Reis e Paulo Galão (e, claro, Rua na(s) guitarra(s) tocada e pré-gravada) –, mantém a beleza do conceito, sendo difícil decidir qual é a abordagem mais cativante. Se no primeiro disco o processo é mais evidente e as ideias aparecem mais claras, no segundo as diferentes texturas sonoras e o maior balanço da música, menos “dura” e mais swingante do que no primeiro CD, criam outros interesses.

Lançado publicamente no dia 31 de Outubro, no Sabotage do Cais do Sodré, em Lisboa (um bar que associamos ao rock e não ao jazz, o que calculo que tenha sido um “statement” deliberado), esta é certamente uma das obras que ouvi com mais prazer este ano e que entra directamente para o topo da lista dos melhores (e mais importantes) de 2017, pois faz avançar a música.

  • Do Androids Dream of Electric Guitars?

    Do Androids Dream of Electric Guitars? (Clean Feed)

    Vítor Rua and The Metaphysical Angels

    Vítor Rua (guitarras, CD1 e 2) + CD2: Nuno Reis (trompete); Paulo Galão (clarinetes soprano e baixo); Manuel Guimarães (piano); Hernâni Faustino (contrabaixo; Luís San Payo (bateria)