Kimono: “Musique de Chambre avec Basse Électrique” (O’Jazz)

Rui Eduardo Paes

Eis o outro disco que está a marcar o ano de 2017 no caminho que o franco-italiano Roberto Negro vem percorrendo, e como é seu costume com alguns deliciosos armadilhamentos. O primeiro: aumentou o seu trio Kimono para um quarteto, com a adição do saxofonista Christophe Monniot, assim oficializando a aproximação deste ao grupo iniciada em 2015. O segundo: o baixista eléctrico Jérôme Arrighi foi substituído por Stéphane Decolly, que Negro descobriu nos Supersonic de Thomas de Pourquery, e a música que ele e Monniot escreveram tem-no como eixo funcional, e daí o título. O terceiro, e deveras importante para os resultados: a elaboração de um jazz com “groove” (o baterista Adrien Chennebault tem também carta branca para fazer a festa e lançar os foguetes) e com expressão (Negro e Monniot não podiam ter encontrado um no outro melhores desafiadores para uma dedicação ao mais importante factor da musicalidade: a emoção criativa) que vai tanto beber à música erudita do século XX (Stravinsky, Messiaen, Ravel, etc., etc.) e que pega, inclusive, nas suas formas e estruturas (o CD reúne duas sonatas, “Sonate pour une Nouvelle Terre” e “Sonate pour un Monoski”), o que igualmente explica o título, como ao rock (multiplicam-se as referências a Frank Zappa, Magma, Henry Cow, King Crimson, Gentle Giant, momentos havendo também em que os “riffs” de baixo são do mais indubitável metal).

Deste enquadramento que já não é propriamente novo na música dos nossos dias nascem situações que, essas sim, não cessam de nos surpreender, definindo uma das melhores características da obra: é impossível prever o que vem a seguir, e se tentamos logo somos levados ao engano, pois é outra a solução que surge. As composições são complexas e até cerebrais, mas a entrega e os espaços colectivos e individuais deixados à improvisação não podiam ser mais epidérmicos. Há alguma electrónica espalhada ao longo das intrigas, a cargo de Roberto Negro e Christophe Monniot e estabelecendo uma abordagem electroacústica que tem mais que ver com a música experimental dessa área do que com o jazz-rock tocado com sintetizadores, e aqui ou ali descobrem-se elementos transferidos da música improvisada dita não-idiomática. Sobretudo, descobre-se neste entusiasmante álbum a alegria do despropósito, da incongruência, da opção por processos e por materiais à revelia do que está estética e tecnicamente estabelecido como certo ou conveniente. Tudo acaba por ser construído dentro de uma lógica de contrastes e paradoxos, mas de uma maneira que faz com que estes ocorram tão naturalmente que tudo parece normal e plausível. Só que não é assim: nunca foi suposto que se tocasse música de câmara com baixo eléctrico, “field recordings” da selva amazónica e “spoken words” em Japonês.