Wadada Leo Smith: “Solo: Reflections and Meditations on Monk” (TUM Records)

Rui Eduardo Paes

No ano do centenário do nascimento de Thelonious Monk, aquele que bem poderá ser o mais conseguido e inesperado tributo ao pianista e compositor vem de um trompetista, com a particularidade de o dito, Wadada Leo Smith, o fazer com um solo absoluto. Um solo bem distinto de todos os que ao longo da sua carreira gravou, porque nele faz as contas de tudo o que deve ao histórico músico. “Solo: Reflections and Meditations on Monk” chega-nos com a indicação do próprio Wadada de que é Thelonious (e não Miles Davis, como habitualmente se referencia) a sua principal fonte de inspiração. Quatro temas de Monk, “Ruby My Dear”, “Reflections”, “Crepuscule on Nellie” e “’Round Midnight” surgem no alinhamento do CD (é mesmo a primeira vez que o ouvimos a interpretar “standards”), intervalados por peças escritas por Leo Smith com Monk – ou melhor, com determinados aspectos da escrita de Monk, ou da sua performatividade ao piano – como mote. Depois da série de edições grandiosas (e, segundo alguns, megalómanas) que assinou em anos recentes, este regresso ao mais essencialista dos formatos, o solo de trompete, já por si surpreenderia, mas a humildade com que o faz é notável.

As melodias do homenageado são tocadas fielmente, com a sua personalidade a revelar-se, sim, nos desenvolvimentos, e de que maneira. A harmonia e a rítmica de base são respeitadas, assim como os típicos intervalos irregulares e as frases quebradas de Monk (que, de qualquer modo, já eram processuais em Leo Smith), mas a música é levada para desfechos que correspondem inteiramente ao visionarismo a que Wadada nos habituou. É como se vanguarda e tradição tivessem, finalmente, feito as pazes. Em “Monk and His Five Point Ring at the Five Spot Café” este passa para o trompete o que ouviu e viu de Monk num documentário, com o pianista a afastar-se e a voltar ao seu instrumento, assim estabelecendo muito físicos cortes de linearidade discursiva. Em “Monk and Bud Powell at Shea Stadium – A Mystery”, o trompetista põe-se a imaginar o que Thelonious e o seu grande rival fariam juntos numa improvável actuação no cenário de um estádio, como se fossem estrelas de rock. No par “Adagio: Monkishness – A Cinematic Vision of Monk Playing Solo” e “Adagio: Monk, the Composer in Sepia – A Second Vision” é, por sua vez, o Monk baladista que se revisita, com as estruturas a serem desaceleradas e providas de silêncios, uma tocada com surdina e a outra sem, com a diferença de timbres a marcar todas as demais. Simplesmente magnífico.