Dadada: “Saison 3” (Label Bleu)

Rui Eduardo Paes

De disco em disco, e de projecto em projecto, o pianista e compositor franco-italiano Roberto Negro lá nos vai surpreendendo, e com ele também o saxofonista soprano Émile Parisien, um dos membros, completados pelo percussionista e electronicista Michele Rabbia, de um novo grupo do primeiro, Dadada. Negro e Parisien são-nos – a nós portugueses – músicos próximos, o primeiro porque faz parte dos What About Sam? com Luís Vicente, Federico Pascucci, André Rosinha e Vasco Furtado e o segundo devido às suas continuadas colaborações com Hugo Carvalhais e ao facto de ter chamado Mário Costa à sua banda com Michel Portal e Joachim Kuhn como principais estrelas – a mesma que, no passado mês de Agosto, teve no Jazz in Marciac como convidado especial nem mais nem menos do que Wynton Marsalis, para juntos interpretarem um ragtime de 1909 da autoria de Henry Lodge, “Temptation Rag”.

Só nos tempos que correm seria possível encontrar o co-fundador dos vanguardistas New Phonic Art (Portal) a tocar com um músico que tem feito um percurso de preservação das tradições do jazz (Marsalis) e a verdade é que esta nova atitude define por inteiro a personalidade musical destes brilhantes representantes da nova geração do jazz que se pratica em França. É ela, designadamente, que explica a sua (de Negro, mas também de Parisien, tendo em conta que este trio decorre de uma parceria entre ambos, dedicada à adaptação do quarteto de cordas original para um duo de piano e saxofone, das “Metamorphoses Nocturnes” de Ligeti) vontade de criar música inovadora num quadro definido pelas aportações do passado, de inventar o futuro sem renegar a história. O próprio nome do grupo alude a este posicionamento –a tendência artística Dada, nascida no final da década de 1910, continua a marcar a sua influência nas artes de ponta da actualidade e a ser um referente de livre criação. Se não houve propriamente uma música dadaísta, aqui está um jazz dadada, se bem que inspirado também em outra fonte, esta dos anos 1940: as “Constelações” de Juan Miró. A abordagem é nocturna, mas mais interessada na poesia das estrelas do que no negrume, e traz com ela constantes surpresas. É flutuante como um sonho, melódica, polirrítmica e de uma sensualidade que é já a imagem de marca dos seus autores, a de Negro na composição e a dele e dos seus companheiros como intérpretes / improvisadores.