José Lencastre Nau Quartet: “Fragments of Always” (FMR)

Rui Eduardo Paes

Depois de um período de ausência da cena nacional, por ter passado uns anos no Brasil, o saxofonista alto José Lencastre está de regresso, e finalmente com um protagonismo que não tinha tido antes (encontrávamo-lo, sobretudo, em grupos ad-hoc) – o seu Nau Quartet andou pela estrada durante 2016 e eis que surge o disco resultante desse périplo. Factor a realçar é que tal acontece por meio de uma editora de outro país que não o nosso (a FMR é britânica, de Essex), como vai sendo hábito com alguns dos mais interessantes projectos que por cá vão surgindo, sinalizando o interesse que pelo mundo a música criativa de Portugal actualmente gera. No quarteto – e essa é outra particularidade digna de nota – encontramos o (mais conhecido nos circuitos internacionais) irmão de José, João Lencastre, baterista, compositor e líder dos celebrados Communion. Se parecia que estavam a seguir por caminhos diferentes, as próprias evoluções pessoais de José e João Lencastre indicavam que um encontro estava iminente, e eis que agora se proporciona, para nosso prazer. Com eles estão dois membros do Red Trio, o pianista Rodrigo Pinheiro e o contrabaixista Hernâni Faustino, e a mera presença de ambos indicava o que encontramos em “Fragments of Always”: uma decidida viagem pelos domínios da improvisação, integral mas com matriz solidamente enraizada no jazz.

Os primeiros minutos da “Aphorism Suite” instalam-nos numa ambiência próxima da dos álbuns de John Coltrane da década de 1960, mas não por muito tempo. As 12 faixas incluídas estão em permanente mutação, com cada uma a fazer-se valer, precisamente, pela metamorfose dos seus discursos e gramáticas, e com cada uma também a jogar uma multiplicidade de referências do passado com uma perspectiva contemporânea e de extrapolação de fórmulas e de estilos. Há sempre algo que julgamos reconhecer e algo que nos troca as voltas, seja pela maneira de tocar de José Lencastre, utilizando poucas notas e explorando-as de várias perspectivas (um pouco à semelhança de José Bruno Parrinha, mas com uma abordagem mais abrasiva), como pelo extensíssimo vocabulário de Rodrigo Pinheiro, que frequentes vezes traz a terreno vocabulários e recursos técnicos da música erudita para piano. Até a aparentemente improvável combinação entre Hernâni Faustino e João Lencastre é causa de especial agrado, carburando tudo o resto de formas pouco convencionais. A música consequente é reflexiva, e inclusive nos momentos mais intensos e agitados. Somos convidados a mergulhar dentro de nós, e não para nos inebriarmos em introspecção. Pelo contrário: ficamos permanentemente alerta e sem conseguirmos ficar quietos no sofá. O que quer dizer que este CD mexe connosco, e isso não é de todo habitual. Este ano está a ficar demasiado pequeno para tanto bom disco português, e o presente é, sem dúvida, um dos mais superlativos.