Abdul Moimême: “Exosphere – At the Pantheon” (Creative Sources)

Rui Eduardo Paes

Para um músico que utiliza a electricidade ou a electrónica como a base da sua concepção musical, actuar num espaço de grande reverberação pode ser um pesadelo. Para Abdul Moimême, o concerto realizado a solo no festival Escuta Profunda de 2015 (o próprio nome é esclarecedor quanto à aplicação dos princípios “deep listening” de Pauline Oliveros) foi um desafio. E, pelo que está documentado neste “Exosphere”, um desafio brilhantemente superado. As características acústicas únicas da Igreja de Santa Engrácia, onde tem sede o Panteão Nacional, foram exploradas por Moimême até ao limite. Outros casos houve em edições recentes da Creative Sources, mas com instrumentos convencionais e “unplugged”. Neste caso, a música foi criada por duas guitarras eléctricas colocadas horizontalmente e tocadas em simultâneo com recurso a objectos de dimensões e aspectos variados – as já célebres esculturas metálicas deste músico de Lisboa que, em alguns casos, chegam a tapar da vista os próprios instrumentos, como se as preparações fossem mais importantes do que as próprias guitarras. Articular o que saía dos amplificadores com os ecos provocados pela arquitectura da igreja não terá sido fácil, mas o que resulta é como se este solo fosse, na realidade, um duo.

É ainda muitas outras coisas o que resulta, e por vezes até entrando em alguns curiosos paradoxos – uma música integralmente improvisada que se desenrola em “stream-of-consciousness”, mas que parece suspender o tempo; uma música paisagística que é também imersiva, colocando-nos dentro das suas “soundscapes” e fazendo com que o carácter ambientalista destas, na perspectiva cara a Brian Eno, resvale para a “musique concrète” e para a consequente acusmática cunhadas por Pierre Schaeffer e Pierre Henry. Quem esteve presente na performance sabe que o som acontecido não era propriamente o efeito directo da causa que os olhos apreendiam. Tudo isto com um tipo de abordagem derivado da “improv” alteradora de consciência dos AMM e do experimentalismo perceptivo do ocultista Z‘ev. “Exosphere” transforma crepitares, raspanços e estalidos em por vezes imponentes, densas e majestáticas vibrações, confundindo proximidade e distância na complexa gestão a que submete o espaço. É um disco em que a assumida fragilidade do gesto criativo ganha a clássica gravidade de um requiem, transportando para si a atmosfera do local onde repousam tanto o “presidente-rei” Sidónio Paes como o escritor anarquista Aquilino Ribeiro.