Pega lá dois

João Mortágua

Pega lá dois

Carimbo Porta-Jazz

texto Gonçalo Falcão

Um dos mais cativantes saxofonistas em actividade na cena nacional do jazz, o músico do Porto lança dois discos de uma só vez, bastante diferentes entre si mas igualmente bons. A jazz.pt ouviu-os atentamente…

E de uma só vez, pega lá dois discos do saxofonista João Mortágua, acabados de editar em simultâneo com enormes diferenças entre eles, mas um ponto em comum: são muito bons.

Começamos com “Mirrors” porque é a gravação do concerto realizado pelo grupo luso-galego de Mortágua na Plataforma das Artes de Guimarães, no contexto do último Guimarães Jazz. A música, já escutada ao vivo, mantém a energia quando ouvida em disco, pois parte de ideias interessantes sem complexidades ocas: coisas simples e boas.

São canções quentes, com um fluir natural que instala o cenário para as improvisações, escritas com atenção ao detalhe e com uma instrumentação bem ponderada. Apesar de todos os músicos serem jovens, a qualidade é grande e, para além do saxofone, é justo destacar o trompete de Ricardo Formoso, a bateria de Iago Fernandez e a guitarra de Virxilio da Silva. Todos com muto bom gosto e a tocar superiormente. O disco vai passando por diferentes ambientes numa audição que abre diferentes estados de espírito, mas sempre sobre um som eléctrico (baixo e guitarra) e uma frente de metais (saxofone e trompete).

É um prazer enorme ouvir a música, desde logo porque sentimos que não está a tentar acomodar-se a uma linguagem ou um estilo pré-estabelecido: procura o seu próprio território sem medo da pop e do rock, saindo para fora do conforto dos academismos sobre “o verdadeiro jazz”. Se hoje ouvimos dezenas de músicos do Norte da Europa, com formações técnicas extraordinárias e uma enorme vontade de experimentação, é porque as suas escolas lhes abrem horizontes e os estimulam a experimentar. É essa a natureza do ensino que se quer superior como contraponto ao técnico. Mortágua, formado pela ESMAE, é um destes casos de quem não se contenta com a repetição de coisas sabidas e ouvidas e usa os ingredientes que lhe parecem melhores para se surpreender e nos maravilhar de caminho. Já o disse e repito, é um nome a que convém estar atento.

“Axes” alarga o grupo de “Mirrors” de quinteto para sexteto e muda completamente a instrumentação e os músicos. Temos neste caso uma frente de quatro saxofones (alto e soprano de Mortágua, alto de José Soares, tenor de Hugo Ciríaco e barítono de Rui Teixeira) sobre dois bateristas, Alex Lázaro e Pedro Vasconcelos. O quarteto de saxofones usa padrões repetitivos num som que evoca a soul matemática do World Saxophone Quartet, com jogos de parada e resposta entre os graves e os agudos. As frases são repetitivas, gaguejadas pelos saxofones em combinações curtas de notas cujo cruzamento gera padrões em permanente renovação. São ainda os sopros os responsáveis pelas criações das bases sobre as quais evoluem os solos. A secção rítmica não se limita a marcar o andamento, pois adiciona cor e um ritmo apoplético, cheio de detalhes a uma música que, sem esta base, ficaria presa à secura do som dos instrumentos de palheta.

Um disco excelente de ouvir, com um som pacífico, mas com ideias musicais muito interessantes de seguir, tanto numa audição pormenorizada como em contexto menos atento.

  • Mirrors

    Mirrors (Carimbo Porta-Jazz)

    João Mortágua

    João Mortágua (saxofones alto e soprano); Ricardo Formoso (trompete, fliscórnio); Virxilio da Silva (guitarra eléctrica); Felix Barth (baixo eléctrico); Iago Fernandez (bateria)

  • Axes

    Axes (Carimbo Porta-Jazz)

    João Mortágua

    João Mortágua (saxofones alto e soprano); José Soares (saxofone alto); Hugo Ciríac (saxofone tenor); Rui Teixeira (saxofone barítono); Alex Lázaro (bateria); Pedro Vasconcelos (bateria, percussão)