Orrù / Mar / Rocha: “Live at MIA 2015” (End Titles)

Rui Eduardo Paes

Decididamente, os efeitos produzidos pelo “congresso de improvisadores” que anualmente tem lugar em Atouguia da Baleia, concelho de Peniche (MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia) ultrapassam as efémeras realizações que têm lugar nos três dias em que músicos vindos de várias partes do mundo se reúnem para nada mais, e nada menos, do que improvisar livremente. Neste finaldo ano chegou-me um exemplo muito concreto: um disco lançado pela suíça End Titles. Trata-se da gravação do concerto inaugural da edição de 2015 do MIA, reunindo o contrabaixista sardo Adriano Orrù, a violinista portuguesa Maria do Mar e o clarinetista (soprano e baixo) brasileiro, mas radicado em Barcelona, Luiz Rocha. Os três instrumentistas não se conheciam e nunca tinham ouvido falar uns dos outros. Foi um dos organizadores do festival, o também músico Paulo Chagas, que os juntou, imaginando – porque ele sim, os conhecia a todos, dado ter tocado com eles, individualmente, em anteriores ocasiões – que a combinação resultaria da melhor maneira.

Este concerto que teve como cenário a velha Igreja de S. José – a reverberação é natural, como se percebe até pelas tosses do público – teve aquela magia dos primeiros encontros que só a improvisação consegue providenciar. Os músicos rapidamente colaram e excelentes resultados aconteceram, como agora se pode comprovar neste CD que se assemelha a um single em vinil. A combinação de dois cordofones com uma madeira, as formações de Orrù e do Mar e o próprio envolvimento arquitectónico e acústico da actuação fizeram com que a matriz das construções musicais esteja na música de câmara, mas a todo o momento se detectam interferências jazzísticas, sobretudo da parte do contrabaixista e do clarinetista. Talvez devido à sua irreverência no contexto em causa, pontos altos são o “spoken word” através do bocal do clarinete por parte de Rocha (um dos participantes que no MIA deste ano mais impressionaram) e a manipulação percussiva de Orrù com o contrabaixo deitado no chão. Uma delícia especial é acompanhar o trabalho violinístico da nossa Maria do Mar. Promete grandes desenvolvimentos para os próximos tempos. Entretanto, este mesmo trio apresentou-se no recente Creative Fest, estabelecendo o Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia como uma incubadora de projectos.