Lucía Martínez / Agustí Fernández: “Desalambrado” (Pasoancho Productions)

Rui Eduardo Paes

Nascida em Vigo, Galiza, a apenas hora e meia do Porto, e antiga aluna da ESMAE, Lucía Martínez tem fortes vínculos com a cena jazz do Norte de Portugal, apesar de residir em Berlim. O quarteto da jovem baterista e percussionista inclui mesmo músicos portugueses, designadamente João Pedro Brandão e Pedro Neves. Com um trajecto repartido entre o “mainstream” e a vanguarda, integra o MBM Trio, com Baldo Martínez e Antonio Bravo, e lidera o Berliner Project Azulcielo, no qual encontramos Viktor Wolf, Silke Lange, Ludwig Hornung e Marc Muellbauer. O ano passado, estreou um novo projecto, contracenando com o veterano catalão Agustí Fernández, um dos mais importantes pianistas da música improvisada e do jazz criativo europeus, senão do mundo, e parceiro de músicos como Evan Parker, Barry Guy, Mats Gustafsson e John Edwards. O primeiro resultado dessa parceria acaba de vir ao mundo: “Desalambrado”.

A música que aqui encontramos tem tanto de intimista quanto de exploratória, e se por vezes ganha a profundidade “clássica”, “erudita”, própria de uma situação camerística, em outras emergem situações de assumido humor, como quando Martínez “brinca” com o que parece ser uma “crackle box”. Todas as peças são integralmente improvisadas, mas desde os primeiros instantes é uma filiação idiomática no jazz que se define, e o curioso é que tal acontece mais pelo lado de Fernández, supostamente o mais livre e descomprometido elemento do duo, do que do da sua interlocutora. A grande referência da combinação de um piano com uma bateria está nas associações de Cecil Taylor com Tony Oxley, Paul Lovens, Gunter Sommer e vários outros, mas é bem diferente o que ouvimos nestas oito peças: o silêncio torna-se tão importante quanto as emissões de som, Agustí Fernández deixa transparecer a sua veia lírica e Lucía Martínez fixa-se numa abordagem de “bricolage”. Os resultados são igualmente deliciosos.