Pãodemónio: “Pirraças Pueris” (edição de autor)

Rui Eduardo Paes

O álbum de estreia do quarteto Pãodemónio começa pelo lado mais acessível do projecto: um tema radicado na fusão (jazz com funk com rock) que se inspira no “Karamazov” de Dostoievsky. Está bem, mas se o resto do alinhamento fosse igual não haveria nada de particular a dizer. Não é: o que vem logo a seguir, com “O Quarto Fechado”, coloca-nos de imediato noutro plano: se a fusão é a base de trabalho de Fábio Almeida, Nuno Trocado, Ricardo Pinto e Marcelo Aires nesta combinação de saxofones, guitarra, teclados, electrónica e bateria, a abordagem tem um pendor exploratório, com outros ingredientes como o metal e o drum ‘n’ bass à mistura e com espaço para uma improvisação que não teme desafiar as cifras. Neste aspecto, podiam ter feito mais, mas acredito que é em concerto, ao vivo, que eles chegam aí. Sabemos como o objecto disco tende a ser um colete de forças.

“Efeitos Secundários”, o terceiro tema, é reflexivo e ruminante. Pode haver muito “groove” por aqui, mas esta é uma música que pensa com o olhar dirigido para o infinito e não para o movimento dos pés. Coloca armadilhas no caminho e ultrapassa-as, complica as estruturas e depois resolve-as com a maior das naturalidades, sai de rumo e traz os desvios (as descobertas feitas) para o troço que vai seguindo. “Pirraças Pueris”, a peça-título, tem passagens de dimensão épica (e, sim, dostoievskiana), mas tudo o resto funciona como contra-argumento. O que acaba por acontecer é surpreendente: os sons ganham voo precisamente quando se contrariam as lógicas de efeito fácil. “Erro” tem tudo a ver com pressa, com rapidez, com a possibilidade de tropeçar nos passos. Não tropeça. Mas acaba por parar e ficamos a perguntar-nos o que é que aconteceu (uma corrente de ar?) durante os 45 minutos que leva a ouvir este CD.