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Bode Wilson: “26” (Carimbo Porta-Jazz)

Carimbo Porta-Jazz

António Branco

Ao nono lançamento, a Associação Porta-Jazz – que detém significativa quota-parte de responsabilidade pelo aumento do reconhecimento (largamente merecido, diga-se) do panorama jazzístico portuense – continua a apostar em projetos de características particularmente interessantes.

Bode Wilson (nome curioso e arte gráfica a condizer) é um trio que explora a liberdade e as vastas possibilidades de interação proporcionadas pela fórmula saxofone-contrabaixo-bateria, criação do hard bop amplamente desenvolvida pelo free jazz. Ainda que aqui seja utilizado o saxofone alto (e também a flauta) e não o mais habitual tenor.

O saxofonista e flautista João Pedro Brandão, o contrabaixista Demian Cabaud e o baterista Marcos Cavaleiro são músicos de provas dadas e que se conhecem bem, o que não significa (bem pelo contrário) que se entreguem a rotinas ou a soluções previsíveis. Desde logo, estamos habituados a escutar Brandão integrado numa formação de grande dimensão (Orquestra Jazz de Matosinhos) ou a dirigir o Coreto Porta-Jazz (“Aljamia”, de 2012, do qual é autor e arranjador da totalidade das composições, é uma das obras fundamentais do jazz nacional da última década, aguardando-se com expetativa o novo “Mergulho”), pelo que um dos principais pontos de interesse à partida para a audição deste disco era sabermos a forma como o saxofonista se movimenta em formato reduzido, no qual surge, naturalmente, muito mais exposto.

O sucesso da jornada é manifestamente positivo. A dupla rítmica constitui um “tandem” coeso e adaptável a vários contextos, bastando escutarem-se, a título de exemplo, os discos das formações lideradas pelo contrabaixista.

“26” – álbum de estreia do projeto – contém composições dos três músicos (ainda que o baterista só assine uma), facto que é revelador da democraticidade de processos em vigor, não apenas na fase de conceção como também na execução sonora. Realmente, parece não existir um “líder” declarado, antes uma partilha concertada de riscos e atribuições, com os resultados a denunciarem um processo de amadurecimento que assenta num conjunto de afinidades sonoras e experiências comuns.

O disco abre em bom nível com a solenidade aveludada de Brandão em “O Arbusto”, cuja audição permite intuir influências de mestres como Johnny Hodges e “Cannonball” Adderley. Esse processamento criativo de referências basilares reforça-se na peça seguinte, “De Bem Longe”, com ziguezagues de matriz “ornettiana” a encontrarem na pujança do contrabaixo de Cabaud e na delicadeza do trabalho de címbalos de Cavaleiro adequados aliados.

Segue-se “Atlas”, da autoria do contrabaixista, cuja introdução funciona como rastilho para inflamar a secção rítmica, em contraste com a placidez do saxofone, culminando num notável diálogo entre este e o cordofone. Outros dos momentos que mais avultam são “Segunda Dança” – onde fica exemplarmente expressa a elegância discursiva de Brandão, que incorpora com propósito elementos da música mediterrânica que lhe são tão caros – e o dinamismo de “Campo del Cielo”, de Cabaud, marcado pela altivez consequente do registo do saxofonista.

A única versão que o trio decidiu incluir é “Re: Person I Knew”, de Bill Evans, que aqui surge numa apreciável leitura. Notas liminares para a cadência dolente de “Marcha” e para a gravidade de “Incompletus”, acentuada pela utilização do arco por parte do contrabaixista. Apenas à nona peça do programa – “Jogo de Amar” – se escuta a flauta, lamentando-se que Brandão não opte por ela mais vezes. Em jeito de epílogo, “A Morte É Uma Flor” é uma belíssima peça de câmara.

Um ótimo disco, que acresce significativamente ao pecúlio de qualquer dos três músicos, reiterando a indispensabilidade de continuarmos a seguir atentamente o seu trabalho.

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    26 (Carimbo Porta-Jazz)

    Bode Wilson

    João Pedro Brandão (saxofone alto, flauta); Demian Cabaud (contrabaixo); Marcos Cavaleiro (bateria)

Agenda

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