Sonic Elements

Joe McPhee: “Sonic Elements” (Clean Feed)

Clean Feed

Nuno Catarino

Visitante regular do nosso país, Joe McPhee tem-se apresentado com diversas formações. Tocou em Lisboa, Porto e Coimbra e chegou até a colaborar com músicos nacionais (integrou um quarteto liderado por Rodrigo Amado, que actuou no Centro Cultural de Belém).

Contudo, o momento mais especial da ligação de McPhee com Portugal terá sido o concerto que deu no Museu Machado de Castro, em Coimbra. Integrada no festival Jazz ao Centro 2009, essa prestação não só mostrou a versatilidade instrumental do multi-instrumentista americano, como a capacidade emotiva da sua música. Aquele solo absoluto foi uma experiência quase religiosa, quase transcendente.

Ora, é a solo que McPhee surge neste disco, registo de um concerto incluído na edição de 2012 do Festival de Jazz de Ljubliana. A actuação divide-se em duas partes (ou “episódios”), cada uma delas dedicada a um herói pessoal do músico (ele próprio uma lenda viva para as gerações contemporâneas). A primeira metade do disco é um tributo a Don Cherry e nela McPhee utiliza o mesmo instrumento que tinha as preferências de Cherry, o trompete de bolso.

O CD começa com uma toada quase silenciosa, com McPhee a explorar o seu “pocket” de forma quase subliminar, num sopro ténue e contido. Mais à frente passa a explorar efeitos, servindo-se, sobretudo, da voz processada pelo metal. Quase sempre textural e atmosférica, esta música encontra paralelo em alguns trabalhos do próprio homenageado. Esta primeira parte do disco engloba dois elementos, “Wind” e “Water” (a explicação do título).

A segunda metade é dedicada a Ornette Coleman, com uma substituição do trompete para o saxofone alto. Joe McPhee começa com um discurso ondulante, evocativo de Ornette, embora evolua livremente, transformando-se. Há uma rápida mudança de ambiente e ficamos perante uma toada mais lenta e de assumido carácter melódico, que se traduz numa abordagem emotiva – quase que se imagina Albert Ayler.

Menos textural que a primeira metade, esta segunda assenta mais no tonalismo improvisado de McPhee, que aqui disserta sobre outros dois elementos - “Earth” e “Fire” - e ainda repesca um antigo tema. Chega-se a incluir até algum “groove”, encerrando o disco com um regresso à emoção ayleriana, agora de forma mais trémula. Essa melodia sentimental, evocada em dois momentos diferentes, vem desse referido tema, “Old Eyes”.

McPhee continua a exibir a sua profunda vitalidade musical, colaborando com projectos enérgicos de músicos mais jovens, como The Thing e, mais recentemente, o nórdico Trespass Trio (também recomendável). A solo, relembra-nos as suas enormes imaginação e capacidade criativa. Esta gravação serve, assim, para voltarmos a celebrar a sua dimensão e contínua relevância, como figura tutelar do jazz criativo contemporâneo. 

  • Sonic Elements

    Sonic Elements (Clean Feed)

    Joe McPhee

    Joe McPhee (trompete de bolso, saxofone alto, voz)

Agenda

01 Fevereiro

Com Calma Jazz Jam

Com Calma - Espaço Cultural - Lisboa

02 Fevereiro

João Lencastre, Pedro Branco e João Hasselberg

Miradouro de Baixo - Carpintarias de São Lázaro - Lisboa

02 Fevereiro

Mockūnas-Mikalkenas-Berre

Água Ardente - Lisboa

02 Fevereiro

Ensemble Porta-Jazz / Robalo

Porta-Jazz - Porto

02 Fevereiro

José Menezes Quarteto

Cine Incrível - Alma Danada - Almada

03 Fevereiro

Pedro Neves Trio “Hindrances” / Wabjie

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Percussion

Água Ardente - Lisboa

03 Fevereiro

Gianni Narduzzi “Dharma Bums” / Carlos Azevedo Quarteto “Serpente”

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Mockūnas-Mikalkenas-Berre

Salão Brazil - Coimbra

04 Fevereiro

Coletivo Osso/Porta-Jazz “Interferências” / Umbral

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

Ver mais