Sale Quanto Basta

Paolo Angeli: “Sale Quanto Basta” (RéR Megacorp)

RéR Megacorp

Rui Eduardo Paes

A contracapa do novo CD a solo de Paolo Angeli indica que este toca “guitarra sarda preparada”, mas essa é, apenas, meia verdade. O inusitado instrumento de que vem fazendo uso numa carreira já de décadas é bem mais do que isso: além de preparado (ou seja, tocado com objectos que lhe alteram o timbre, uns fixos e outros móveis), foi radicalmente transformado.

A adaptação inclui cordas extras accionáveis por simpatia (18 no total, e daí que muitas execuções pareçam ser em duo ou trio), martelos algo similares aos da sanfona, um par de pedaleiras mecânicas e aplicações eléctricas várias (pequenos motores), além de adaptações que assemelham a guitarra a um violoncelo ou, mais exactamente, a uma viola da gamba, de modo a também ser utilizada com arco.

No que ao conteúdo respeita, encontramos aqui todas as particularidades que fazem de Angeli uma figura única a nível mundial: “Sale Quanto Basta” soa tanto a música antiga como a música experimental, sendo umas vezes acústica para em outras ocasiões ganhar uma dimensão electro que vai até ao limite da distorção e do “feedback”. Há desarmantes contrastes entre o popular, o “folky” mesmo, e o erudito, o pormenorizadamente composto e o improvisado, o jazz e o rock.

E se a Sardenha está frequentemente presente (com maior evidência ainda quando Angeli canta segundo a tradição polifónica da sua ilha natal) também há (novidade!) novos elementos ibéricos, ou não estivesse o músico agora radicado em Barcelona. O que só vem aprofundar o carácter mediterrânico desta deliciosa proposta.

Paolo Angeli esteve já várias vezes em Portugal, do que resultaram peças como “Lulas” e “Azulejos”, ambas inseridas no álbum “Bucatu”, de 2003, e reza a história que construiu, por encomenda, um exemplar do seu bizarro cordofone para nem menos do que Pat Metheny. A luminária norte-americana, infelizmente, nunca o utilizou em disco. Por cá, Angeli teve uma relação de trabalho com o inventor da “guitarra portuguesa mutante”, Nuno Rebelo, que, por sinal, também foi viver para a capital catalã.

Mais uma vez, é a RéR de Chris Cutler (membro dos históricos Henry Cow, Art Bears e Cassiber, além de um regular colaborador dos portugueses Telectu) que o edita, o que só por si atesta do reconhecimento conquistado pelas suas explorações inovadoras da tradição. Como se não bastasse o facto de já ter partilhado palcos e estúdios com gente como Fred Frith, Jon Rose, Otomo Yoshihide, Evan Parker, Hamid Drake, Ned Rothenberg ou Elliott Sharp…

  • Sale Quanto Basta

    Sale Quanto Basta (RéR Megacorp)

    Paolo Angeli

    Paolo Angeli (guitarra sarda transformada)

Agenda

01 Fevereiro

Com Calma Jazz Jam

Com Calma - Espaço Cultural - Lisboa

02 Fevereiro

João Lencastre, Pedro Branco e João Hasselberg

Miradouro de Baixo - Carpintarias de São Lázaro - Lisboa

02 Fevereiro

Mockūnas-Mikalkenas-Berre

Água Ardente - Lisboa

02 Fevereiro

Ensemble Porta-Jazz / Robalo

Porta-Jazz - Porto

02 Fevereiro

José Menezes Quarteto

Cine Incrível - Alma Danada - Almada

03 Fevereiro

Pedro Neves Trio “Hindrances” / Wabjie

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Percussion

Água Ardente - Lisboa

03 Fevereiro

Gianni Narduzzi “Dharma Bums” / Carlos Azevedo Quarteto “Serpente”

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Mockūnas-Mikalkenas-Berre

Salão Brazil - Coimbra

04 Fevereiro

Coletivo Osso/Porta-Jazz “Interferências” / Umbral

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

Ver mais