Isabel Rato, 21 de Setembro de 2022

Esperança no futuro

texto: Nuno Catarino / fotografia: Inês Sousa Vieira

A pianista e compositora Isabel Rato é criadora de um universo musical particular. A sua música original, revelada nos discos “Para Além da Curva da Estrada” (2016) e “Histórias do Céu e da Terra” (2019), tem uma assumida ligação com a tradição musical portuguesa. Neste ano de 2022 editou o seu terceiro registo enquanto líder, o disco “Luz” (edição Nischo), gravado em quinteto com João David Almeida na voz, João Capinha nos saxofones, João Custódio no contrabaixo e Alexandre Alves na bateria. Neste novo disco confirma, mais uma vez, a sua particular ligação com a terra. Estivemos à conversa com a pianista e compositora, que nos falou sobre o seu percurso, influências, ideias e planos.

Como chegaste à música, ao jazz e ao piano? 

Tudo começou quando tinha cinco anos. Os meus pais decidiram comprar um piano acústico vertical, uma antiga pianola. As aulas de piano começaram em nossa casa com a professora Julieta Boavida, uma senhora dedicada e atenciosa. Comecei pelo ensino clássico de piano, acabei por parar aos dez anos, fui estudar guitarra aos doze (o meu segundo instrumento) por influência do meu irmão mais velho, mas fui sempre tocando piano. Regressei com mais entusiasmo talvez aos dezassete anos... Não me recordo exatamente da altura em que começámos a ouvir jazz em casa, mas foi talvez com doze ou treze anos... Juntamente com tudo o resto que ouvíamos na altura, de outros estilos. Quando regresso ao estudo do piano, mais tarde, aos dezoito/dezanove anos, volto a estudar de uma forma mais abrangente fazendo tanto clássico como jazz, juntamente com outras disciplinas. 

Comecei a tocar ao vivo aos dezassete anos e profissionalmente aos dezanove anos, com o grupo Despe & Siga. Comecei a fazer muita estrada e a tocar com muitos grupos; aprendi muito por onde passei e com quem toquei. O jazz propriamente dito vai sempre tendo um lugar especial, mas, só mais tarde, decido fazer aulas particulares com o João Paulo Esteves da Silva. Em 2011, entro na Escola Superior de Música de Lisboa no curso de jazz. O que vem delinear o meu pensamento futuro do que queria fazer na música.

Quem foram as tuas primeiras influências (músicos, discos...) no jazz? 

Pergunta difícil. Foram muitas influências ao início: Herbie Hancock (“The New Standards”, “1+1”), Chick Corea (Elektric Band – “Inside Out”), Keith Jarrett (“My Song”, “Belonging”, “Standards”)  Miles Davis (“Tutu”; “Amandla”), John McLaughlin (“The Heart of Things”, “The Promise”), John Scofield (“I can see your house from here”, “A Go Go”), Pat Metheny (“Letter from Home”, “The Road to You”, “Beyond the Missouri Sky”, “Imaginary Day”), Joe Zawinul (“My People”), Jan Garbarek (“Folk Songs”, “Legend of the Seven Dreams”, “Madar”, “Ragas and Sagas”), Michael Brecker (“Tales from de Hudson”), Weather Report (“Black Market”), António Carlos Jobim (“Inédito”, entre outros), Hermeto Pascoal (“Festa dos Deuses”), Egberto Gismonti, Guinga (“Delírio Carioca”), entre muitos, muitos outros…

A tua música está muito ligada à terra, à tradição musical portuguesa. Como chegaste a este universo musical particular? 

Comecei a ouvir desde cedo muita “world music”, com especial foco na música indiana, muita música de tradição africana também… Cheguei a frequentar as aulas de coro onde vimos bastante repertório das canções tradicionais portuguesas recolhidas por Michel Giacometti, arranjadas pelo compositor Fernando Lopes Graça. Na música erudita, interessou-me bastante o compositor Béla Bártok (entre outros), que também tem uma obra vasta em que a recolha do folclore foi fundamental na sua obra. 

Na verdade, as melodias tradicionais portuguesas, muitas vezes monofónicas, trazem inúmeras possibilidades de arranjo e de harmonização levando-as para outros horizontes. Muitas vezes, são melodias simples baseadas em escalas pentatónicas, escalas maiores ou menores, em que os caminhos que se podem ver e ouvir nelas são extraordinários. É algo que me fascina e desafia compor à volta destes temas. São e representam também a nossa história enquanto povo (e consequente mistura de povos) ao longo dos séculos, representam as nossas origens, a nossa ligação à nossa cultura e à nossa terra.


Em Portugal há tr
ês figuras inevitáveis quando falamos no piano jazz: Mário Laginha, João Paulo Esteves da Silva e Bernardo Sassetti. Qual a tua relação com as suas músicas? 

Sou verdadeira admiradora da música e mestria dos três. Tive a sorte de estudar com o João Paulo Esteves da Silva durante algum tempo e de poder conhecer o seu trabalho, inclusivamente tocar a sua música. Não há palavras para descrever a genialidade de João Paulo, a sua música é como a sua poesia, belíssima e universal, e sempre a ultrapassar os limites do que estamos à espera. A sua música é uma verdadeira inspiração.

O Mário Laginha foi o primeiro pianista português que ouvi, juntamente com a Maria João, o duo que me fez escutar jazz português. Sempre maravilhosos, foram uma das referências mais importantes para mim e para muita da nossa geração. Também estudei vários temas seus.

O Bernardo Sassetti ouvi já mais tarde, mas acabei por estudar várias peças suas e entrar na sua composição, ainda fiz algumas transcrições da sua música também. Genial e autêntico, com uma obra de grande beleza. E tão duro ao mesmo tempo por já não estar entre nós. De certa forma, todos eles me influenciaram.

No final do curso da ESML, acabei por realizar juntamente com Nuno Melo (guitarrista, amigo e colega do curso), um “Real Book Português”, uma compilação de inúmeros temas de compositores do jazz português, uma forma de ajudar a divulgar o jazz nacional, entre eles os temas de João Paulo Esteves da Silva e de Mário Laginha. 

Editaste em 2016 o disco “Para Além da Curva da Estrada” e depois em 2019 o disco “Histórias do Céu e da Terra”. O que representaram estas duas gravações? 

O “Para Além da Curva da Estrada” representa o ponto de partida, o arriscar para uma nova realidade de me dedicar à composição e ao jazz de forma mais profunda. Marca também o início de um som, de uma identidade, que vai acabando por acontecer naturalmente. Também marca o início de ser líder de um grupo, de fazer gestão e organização de tudo; de fazer agenciamento; e acima de tudo, partilhar a música com os músicos.

O “Histórias do Céu e da Terra” marca a continuação e afirmação do que procurava, com mais certezas e confiança enquanto líder, e também para escrever e fazer arranjos. Fiz muitas experiências nos temas, de texturas também com os instrumentos, maior liberdade também; tenho as parcerias muito especiais e altamente valiosas com a Beatriz Nunes, a Elisa Rodrigues, o João Barradas, o João Rato e o Quarteto Arabesco, que trouxeram a sua mestria, a sua música e entrega para este disco. 

Lançaste agora, em 2022, o teu terceiro disco, “Luz”. Que ideias é que pretendeste apresentar neste novo trabalho? 

Este é um disco escrito em plena pandemia e a viver pela primeira vez a maternidade. Para além de querer pensar na música de uma forma mais técnica, ela é autenticamente aquilo que senti e vivi. Um turbilhão de emoções e sentimentos muito intensos, muitas noites sem dormir e uma vontade enorme de escrever música.

O “Luz” representa a minha “nova vida” enquanto mãe, um período intenso de muitas mudanças. E daí ser um disco mais emotivo e intimista. Tinha perdido o meu pai há um ano, tinha sido muito duro também. Este disco representa tudo isto, as incertezas vividas, a profunda impermanência, mas com uma necessidade de ter esperança no futuro. De não conformidade com o que estávamos a viver. 

Para este disco trouxe finalmente o meu piano Nord para tocar, com utilização de um som “Lead”, ao que sempre estive ligada desde há anos, um som mais de fusão, mas que ainda não tinha encontrado a forma de enquadrar para este projeto.

Como foi o processo de composição dos temas?

O processo de composição acontece de várias formas: normalmente gosto de ouvir muita música antes de compor; outras vezes, toco livremente para ver o que acontece; outras vezes, melodias que “aparecem” na cabeça; por vezes assuntos ou emoções que quero “falar/retratar” na composição, como se tratasse de um poema sem palavras; outras vezes, uma imagem pode despoletar o processo criativo; uma sensação; um acontecimento de enorme felicidade ou muito dramático… Na verdade, tudo pode ser uma espécie de gatilho para iniciar o processo. Depois é escrever e trabalhar nos arranjos para o grupo, para cada instrumento e as suas particularidades, as texturas que quero criar e desenvolver.


O teu grupo
é um quinteto, com João David Almeida na voz, João Capinha nos saxofones, João Custódio no contrabaixo e Alexandre Alves na bateria. Porque escolheste trabalhar este formato e porquê estes músicos?

Escolhi trabalhar neste formato pois tem a ver com as cores, com os timbres dos instrumentos que gosto particularmente, com as texturas que se podem fazer. Os músicos, todos eles, quando os convidei disseram que sim. E escolhi-os porque são extraordinários no seu instrumento, são autenticamente virtuosos e altamente competentes. São grandes improvisadores e aprendo muito com eles, são pessoas tranquilas e são meus amigos. Acima de tudo, fazemos e partilhamos música, escutamo-nos... Eles têm uma verdadeira capacidade de entrega e concretização. E percebem a minha música.

O disco “Luz” conta com a participação de duas cantoras convidadas, Cristina Branco e Sofia Vitória. Porque as convidaste e o que achaste da sua participação?

Convidei a Cristina e a Sofia porque são pessoas e músicos extraordinários. Têm uma noção e vivência na música que é algo que nos arrebata e encanta verdadeiramente. Tenho uma enorme admiração por elas, por todo o seu trabalho e dedicação. Fizeram um trabalho fantástico, com uma enorme entrega e para mim ficou maravilhoso.

Os dois temas que estavam designados tinham arranjo de cordas também, pois queria mesmo realçar ao máximo as suas presenças, quis dar o melhor de mim e esforçar-me ao máximo para as receber na minha música. Estou-lhes verdadeiramente grata por terem aceite trabalhar comigo, por estas parcerias.

No disco entra também o Quarteto Arabesco, em dois temas. Porque decidiste acrescentar um quarteto clássico de cordas?

Para mim faz todo o sentido trabalhar com quarteto de cordas, começo a ouvir as possibilidades na minha cabeça e ganha tanta força que é inevitável acontecer. Deverá ter ligação com o meu percurso, pois escutei ao longo dos anos muita música clássica sendo de salientar os quartetos de cordas de Maurice Ravel e Gabriel Fauré. O Quarteto Arabesco com o Denys Stetsenko, a Raquel Cravino, o Lucio Studer e Ana Raquel Pinheiro fizeram um trabalho de excelência.

Sendo um disco constituído por temas originais ou arranjos de temas tradicionais, a inclusão do tema “From one soul to another” é uma escolha curiosa. Porque decidiste incluir este tema no disco? 

O tema é lindíssimo, é aquele tema que gostava de ter escrito! Na verdade, é da autoria do pianista e compositor que mais tenho ouvido nos últimos tempos, Shai Maestro. Entrei em contacto com ele para lhe pedir se podia gravar o seu tema. E assim aconteceu. Admiro muito o seu trabalho, a sua forma de tocar, todo a sua evolução e a sua expressão.

Além do trabalho com o teu quinteto, em que outros projetos musicais estás envolvida?

Tenho o meu duo com a cantora Elisa Rodrigues, chamado Veia, que está mais parado agora, por causa da pandemia e porque fomos mães ao mesmo tempo. Continuo a trabalhar como pianista freelancer. Estou também a trabalhar como arranjadora em vários projetos. Tenho ainda um concerto pedagógico sobre jazz preparado para crianças, para famílias ou mesmo escolas. E ainda trabalho regularmente com a Câmara Municipal do Seixal no projecto “SeixalJazz vai à Escola”, com um concerto comentado em duo que levamos às escolas de todo o concelho.

Sendo mulher num mundo tradicionalmente masculino, sentes que tiveste tratamento diferente em função do género? Vês alguma evolução nos últimos tempos?

Cada vez mais sinto que sim. Ao longo dos anos já tive episódios complicados, muitas vezes só os processei passado um tempo. Tenho algumas histórias infelizmente para contar... Para tocar ao vivo e trabalhar, penso que há ainda muita desconfiança. E o meio é principalmente constituído por homens, que a maior parte das vezes escolhe homens para tocarem consigo... Por outro lado, há curiosidade quando me apresento enquanto compositora e pianista. Então talvez já tenha acontecido ter sido favorecida e outras vezes descriminada. Mas no geral, há muita falta de trabalho na área do jazz, tanto para homens como para mulheres. E temos cada vez mais alunos a licenciarem-se em jazz e é algo que me preocupa muito. Quero acreditar que os programadores, os festivais e as autarquias vão começar a abrir e criar maior número de possibilidades. 

Honestamente, penso que as coisas mudaram nos últimos anos, pois temos mais mulheres na música, em geral. Mas ainda assim, no jazz, a tendência para desistir enquanto profissão é enorme. A ideia de termos cada vez mais mulheres a fazer música é algo que tem de ser incentivado, estimulado de uma forma positiva (escolas, professores, etc.), e com saídas profissionais visíveis. Quero ser positiva e sou. Mas penso que ainda temos um longo caminho para percorrer... 

Quais são os teus planos para os próximos tempos? 

Para já vou escrever e gravar o próximo disco inteiramente dedicado ao universo tradicional português. Recebi pela primeira vez uma bolsa, neste caso da SPA, que vai dar uma grande ajuda para avançar, para gravar em 2023.

Agenda

28 Setembro

Granular Bastards

Oficinas do Convento - Montemor-o-Novo

28 Setembro

Pedro Alves Sousa, Hernâni Faustino e João Lencastre

Cosmos Campolide - Lisboa

28 Setembro

João Pedro Coelho “Crónicas”

Hot Clube de Portugal - Lisboa

29 Setembro

Mariana Dionísio & João Pereira “Tracapangã”

Café Dias - Lisboa

29 Setembro

Granular Bastards

O'culto da Ajuda - Lisboa

29 Setembro

Cícero Lee Trio feat. Desidério Lázaro

Drama Bar Lounge - Cascais

29 Setembro

Helena Espvall, José Lencastre e Maria da Rocha

Cossoul - Lisboa

29 Setembro

Conundrum: Pedro Melo Alves, Ignaz Schick

ZDB - Lisboa

29 Setembro

Quarteto Cabaud / Marques

Hot Clube de Portugal - Lisboa

30 Setembro

Apophenia

Cossoul - Lisboa

Ver mais