Mané Fernandes, 13 de Julho de 2022

Absolutamente absurdo

texto: Nuno Catarino / fotografia: Raphael Gimenes

O guitarrista e compositor Mané Fernandes sempre se mostrou um músico original. A sua música tem sido caracterizada pelo cruzamento de elementos jazz com outros universos, como a eletrónica e o hip-hop. Depois de ter publicado os discos “BounceLab” (2014) e “Root/Fruit” (2016), neste ano de 2022 editou o novíssimo “Enter the sQUIGG” (Clean Feed), onde volta a confirmar os predicados, apresentando uma música eclética, com groove, profundamente original. Antecipando atuações em Braga (gnration, no ciclo Jullho é de Jazz, dia 15) e em Lisboa (Casa Independente, dia 16) Mané Fernandes fala-nos sobre este trabalho.

 

Antes de mais, o que significa “Enter the sQUIGG”?

“ENTER THE (...)” é um formato do qual gosto muito e que me remete logo para o “Enter the Wu-Tang (36 Chambers)” dos Wu-Tang Clan, grupo que marcou o início da minha adolescência. "sQUIGG" é uma palavra que não existe. Não quer dizer nada. Sou apaixonado pelo absurdo e como este é a conclusão lógica de uma data de coisas. Recentemente pesquisei bastante sobre a tradição zen dos "Koans", pequenos ditos muitas vezes paradoxais e enigmáticos, que não devem ser “resolvidos” mas sim aceites pelo que são, como porta direta para a iluminação. sQUIGG surgiu como um diminutivo non-sense da palavra squiggle, que quer dizer algo como rabisco. Surgiu de uma conversa com um grande amigo do colectivo em que vivia em Copenhaga, acerca de como a música, em toda a sua infinidade, não passa de “squiggly air”, vibrações, “rabiscos”, no ar, que nos chegam aos ouvidos. Isto é absolutamente absurdo e lindo.

 

Na base deste disco estão Luca Curcio no contrabaixo e eletrónica e Simon Albertsen na bateria. Como chegaste a estes músicos e que características é que eles dão à tua música? 

O Simon foi o baterista que o João Hasselberg sugeriu quando lhe perguntei por alguém para o meu exame de admissão ao RMC (Conservatório em Copenhaga onde tirei Mestrado). Foi um clicque musical e pessoal imediato, pouco tempo depois encontrámo-nos em Portugal, e quando me mudei para Copenhaga em três meses mudei-me para o coletivo artístico em que o Simon morava, o já lendário Krokodille Kastle (haha). O Luca conheci no contexto da escola, apesar de não sermos do mesmo ano. Tínhamos muitas ambições e gostos musicais em comum, e o clique pessoal foi muito rápido também. O Luca rapidamente se mudou para o olectivo também. O Luca foi a pessoa com que vivi, lado a lado, o processo de pós-produção que resultou no "Enter the sQUIGG". Tanto o Simon como o Luca se mostraram desde sempre muito disponíveis para conhecer as minhas ideias, muitas vezes exigentes, especialmente do ponto de vista rítmico. Dedicaram-se a compreender a minha linguagem de modo profundo, e trouxeram sempre uma postura criativa e aberta. É um privilégio enorme, são ambos improvisadores inspirados e dedicados, com backgrounds bastante amplos e como unidade são já uma das grandes novas secções rítmicas da cena europeia. Será muito difícil arranjar alguém que substitua um ou outro nesta música.

 

Além destes, contas com outros músicos convidados e destaca-se a participação de três jovens músicos portugueses, que têm participações mais pontuais: João Barradas, José Diogo Martins e José Soares. Porque escolheste estes músicos?

O José Soares é um grande amigo já há uns bons anos, e já tocava a minha música desde os tempos de “BounceLab” (substituiu o João Mortágua uma ou duas vezes), fazia parte do meu projecto “The Mantra of the pHat Lotus” (cujo álbum nunca lancei) e tocámos juntos no quinteto de Eduardo Cardinho e no Omniae Ensemble (septeto e Large Ensemble) do Pedro Melo Alves. Temos uma grande afinidade melódica e de articulação, encaixamos muito bem, e adoro o que o Zé toca e ainda mais como toca o que toca. 

O José Diogo, com quem também toquei no Omniae Ensemble, viveu no colectivo em Copenhaga também, e ficamos muito amigos e sempre muito curiosos pela exploração musical individual um do outro. O contributo do Zé Diogo acabou por ser contido dadas algumas escolhas estéticas que tomei, tanto em estúdio como em pós-produção, mas no concerto ao vivo há muito mais espaço para curtir o gigantesco pianista e improvisador que ele é.

O João Barradas é um grande amigo e um músico e improvisador que admiro imenso. Fiz parte da sua banda “Home” que foi um marco na minha carreira e no meu desenvolvimento, mas antes disso ele chegou a fazer uma participação especial em “BounceLab”, a substituir o pianista Gonçalo Moreira. Afirmo com bastante confiança que o Barradas é dos maiores virtuosos e pensadores musicais da minha geração, e tê-lo a investir tempo a decifrar a minha linguagem e a trazer o seu imaginário para as minhas composições é uma enorme alegria.

 

 

O disco foi editado pela Clean Feed. Qual é para ti a importância desta edição nesta label? 

A Clean Feed é arrojada, aberta ao novo e ao exploratório e muito ampla esteticamente. Este disco parecendo superficialmente “um disco de grooves, numa editora de free jazz” tem os seus valores e a abertura das suas propostas completamente alinhadas com o espírito da editora. Foi com essa intenção que fiz a proposta ao Pedro Costa, que adorou o disco e quis avançar com a coisa.

 

A tua música junta elementos do jazz com ritmos de hip-hop, tem groove, tem eletrónica, cruza diversos universos musicais. Como apresentarias a tua música?

A minha proposta artística sugere a desconstrução de alguns desses termos vindos do mundo do comércio e não da música e da cultura. A minha música deve maioritariamente àquela que já muitos chamam de #BAM (Black American Music, termo cunhado por Nicholas Payton). O “jazz”, o “soul”, o “RnB”, o “funk”, o “hip-hop” são divisórias demasiado simples e artificiais para fenómenos culturais bem maiores e grande complexidade. O termo “jazz” para mim tem apenas o valor prático de unir imensas pessoas que se dedicaram à investigação da improvisação, partindo de um ponto de vista afrocêntrico. Eu vejo-me acima de tudo como improvisador. Agora, sou-o, plenamente consciente de que nasci na Maia, em Portugal, em 1990, e consumi imensa cultura americana (por influência mediática e familiar) tenha sido na música, na arte visual, no humor, no basquetebol que joguei etc. Isto traz certas preferências estéticas e estilísticas, ao de cima, mas estas são acessórias à prática improvisatória e à profundidade dos discursos que estão em jogo num dado momento da minha música. Olhando para a maioria dos media que falam sobre estas coisas, parece que o mundo da improvisação está facilmente disposto a aceitar no seu meio influências de estilos musicais eruditos europeus, ou de várias correntes do rock, mas porque não de hip-hop dos anos ’90, jungle, dub ou a IDM? O que é que querem que eu faça quando vou compor e improvisar música e tenho na alma o John Coltrane ao lado do MF DOOM, a Erykah Badu ao lado do Lee Konitz? O D’Angelo ao lado do Clifford Brown? O nome que resolvi dar a esta música em particular foi “post-beat aesthetics”, a ser lido num contexto de “jazz” e/ou música de improvisação.

 

Vais apresentar “Enter the sQUIGG” no Julho é de Jazz, em Braga, com o grupo completo que gravou o disco. O que poderemos esperar desta atuação? 

Groove, fogo e, com sorte, alguns pontos de interrogação. Vai ser o único concerto desta mini-tour de verão com o sexteto completo, é uma grande massa sónica que por muito de híper-complexidade e mistério que tenha (porque tem) está desenhada para fazer sentir, primeiro que tudo.

 

Como vês a evolução do Mané Fernandes de “Bouncelab” (editado em 2014) até ao Mané Fernandes de agora, de “Enter the sQUIGG”?

Fora tudo o que cresci como humano, sinto, acima de tudo, mais capacidade de transmitir claramente o que quero transmitir a quem estiver disposto a escutar. Com todo o amor que tenho pela música que fui fazendo nos meus 20’s acho que agora estou num sítio em que vejo possibilidades que me entusiasmam muito, e sinto-me muito capaz de as explorar e mostrar a um público. Com sorte, continuo a encontrar mais e mais pessoas que, como eu, as achem mágicas.

 

Quais são os teus planos para os próximos tempos?

Mais concertos com “Enter the sQUIGG” (15 de julho no gnration, 16 de julho na Casa Independente em Lisboa, 21 de julho no Cine Incrível em Almada), toco no trio do Diogo Alexandre (Quebra-Costas, Coimbra), uma residência e concertos em duo com o José Diogo Martins, lançamento do disco dos Quang Ny Lys (com João Mortágua e Rita Maria) e preparação da música do meu novo projecto “matriz_motriz” pela Porta-jazz (sexteto de guitarra, piano, três vozes e dança) a estrear no Guimarães Jazz 2022.

 

 

Para saber mais

https://www.manefernandes.com/

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